“Não se preocupe com dinheiro, apenas viaje” é o pior conselho de todos os tempos

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Tem gente que acha que eu vivo viajando. Mesmo antes de eu ter o blog já achavam isso. Ledo engano. Tiro alguns dias de férias, sim. Mas, para isso, trabalho bastante, me sustento sozinha há muito tempo, e a ideia de largar tudo para viajar – ou mesmo para passar um ano fora – não é, nem de longe, uma possibilidade. E sei que já sou muito privilegiada por tudo o que posso ter/fazer!

Por isso gostei demais quando li esse texto da americana Chelsea Fagan que fala bem o que penso sobre isso. Autora do blog “The Financial Diet”, sobre finanças pessoais, ela escreve na Revista Time, onde o texto foi publicado originalmente antes de ser traduzido em diversas línguas e viralizar. É grande, mas vale demais a leitura!

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Porque “não se preocupe com dinheiro, apenas viaje”
é o pior conselho de todos os tempos

Tenho uma conhecida que acompanho nas redes sociais há mais ou menos dois anos. Ela é legal, inteligente, escreve em um blog e recentemente decidiu ir para a Europa fazer um mestrado em uma área que, por muitas razões, provavelmente não irá levá-la a um grande emprego. E ela sabe disso. Ela fala que é mais uma “oportunidade para aprender e expandir a mente” do que uma preparação para uma futura carreira. O que é bom, mas a verdade é que ela pode aproveitar esse tipo de liberdade – uma nômade, que ama viajar, estudar pelo prazer de estudar e ter longas conversas em bons jantares – porque ela vem de uma família que tem dinheiro e, se não totalmente subsidiada, nunca teve que se preocupar com sua segurança no futuro. Ela ganhou uma espécie de loteria genética e é inútil invejar a liberdade que o destino concedeu a ela.

Mas é útil  e até mesmo importante questionar a atitude dela em relação a tudo isso, atitude que também é comum entre jovens que não precisam se preocupar com o futuro financeiro: a ideia de que você deve viajar, como um imperativo moral, sem se preocupar com algo tão trivial como dinheiro. A garota em questão posta fotos maravilhosas com frases superficiais sobre largar tudo e ir embora, ou sobre pedir demissão daquele emprego que você odeia para começar uma vida nova em um lugar novo, ou sobre absorver a beleza do mundo enquanto você é jovem e sem amarras o suficiente. Isso atrai o espectador para uma vida que ele não pode ter, enquanto o faz se sentir como um derrotado por não conseguir alcançar esse patamar.

É a forma como as classes mais altas fazem para se sentirem melhores por fazer algo que, quase literalmente, todo mundo com dinheiro pode fazer. Viajar por viajar não é uma realização e nem é garantia de fazer qualquer pessoa mais culta e única (alguns dos turistas mais horríveis e arrogantes são as mesmas pessoas que podem visitar três novos países a cada ano). Quem tem o privilégio extremo (sim, privilégio) de sair por aí e viajar enquanto jovem não é melhor nem mais sábio que a pessoa que tem de ficar em casa enquanto trabalha em vários empregos para ter a esperança de um dia conseguir o emprego que o “viajante de carteirinha” acredita ser algo conquistado naturalmente. Agir como se “se preocupar com dinheiro” fosse apenas uma escolha  piora tudo.

Tive a oportunidade de viajar e, mesmo tendo eu mesma bancado tudo, ainda assim era resultado de um grande privilégio. Sou de uma família de classe média que nunca precisou da minha ajuda financeira. E sei que sempre poderei retornar a eles se as coisas não derem certo, além de ter economizado enquanto morava com eles. Mas há milhões de pessoas que não têm nada disso e, mesmo se quisessem pagar por suas viagem, simplesmente não poderiam por causa da responsabilidade que têm ou da pobreza em que vivem. Mesmo na minha forma mais modesta de viajar o mundo, sou eternamente grata.

Além disso, entendo (talvez até melhor, por ter viajado bastante) que poder viajar ou não, não representa em nada alguém como pessoa. Alguns simplesmente têm mais responsabilidades e compromissos e têm menos renda. E quem precisa ficar em um emprego que talvez não ame porque possui família para sustentar, ou faculdade para pagar, ou ainda por não ter alcançado uma independência financeira, também possui o mesmo desejo de aprender e crescer como pessoa que aquele que viaja, mas simplesmente não tem as mesmas opções e está aprendendo e crescendo à sua própria maneira, dentro do contexto de vida que possui. É alguém que está aprendendo o que significa trabalhar duro, adiar gratificações, e melhorar a si mesmo de maneira modesta e lenta. Isso pode não ser um mochilão pela Europa, mas não há como discordar que construa caráter.

Encorajar essa pessoa a “não se preocupar com dinheiro” ou a “largar tudo e seguir seus sonhos” demonstra apenas um profundo desentendimento sobre o que realmente significa “se preocupar” . O que o viajante quer dizer quando fala “não se preocupe” é “não faça disso sua prioridade, ou não dê tanto valor para isso na sua vida”, porque de certa forma ele imagina que você está escolhendo ganhar um dinheiro extra ao invés de ter uma grande experiência. Mas o “se preocupar” que realmente está acontecendo na sua vida é o fato de que você não tem escolha a não ser fazer do dinheiro sua prioridade, pois se você não o ganhar – ou se decidir gastar em uma viagem para o sul da Ásia em uma busca por autoconhecimento – poderá acabar na sarjeta. Dizer que isso é uma questão de escolha é ingênuo e degradante.

Todos nós precisamos buscar nosso caminho para independência financeira e a liberdade. E talvez você seja sortudo o suficiente para que seu caminho envolva muitos passeios por aí, tudo ao seu tempo, e um monte de experiências novas – pois você sabe que a segurança estará esperando por você no fim do arco-íris. Isso não é ruim e não há motivos para se sentir culpado ou envergonhado por causa do seu privilégio. Mas encorajar as pessoas a seguirem o mesmo caminho porque você sente que é a única maneira de elevar o espírito ou buscar um significado para a vida, te faz um babaca. Te faz a pessoa que posta frases de inspiração que se aplicam apenas a uma pequena porcentagem da população que já tem todas as necessidades básicas atendidas. E qualquer um que precise de dinheiro e resolva seguir esses conselhos não será como você, passeando pela América do Sul e tentando graduações por pura diversão. Ele estará, quando a viagem acabar, em uma situação muito pior do que antes. E nenhum chaveiro como souvenir fará essa realidade doer menos.

* Texto original: “Why ‘Don’t Worry About Money, Just Travel’ Is the Worst Advice of All Time”, de Chelsea Fagan, publicado na Revista Time.

* Foto: Pixabay

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