Histórias cubanas

Quando escrevi meu Diário de Bordo de Cuba, disse que três histórias haviam me marcado. Achei melhor compartilhar num post separado para não ficar um texto muito longo. Aqui estão:

A primeira foi quando dois irmãos, funcionários de uma escola, começaram a conversar comigo de um jeito tão simpático e envolvente que, quando vi, estava sentada num bar com eles. É comum que, ao abordar turistas, sempre digam que vão te levar ao bar onde foi gravado ‘Buena Vista Social Club’ (o que é mentira, pois em locais diferentes da cidade me disseram que iam levar, é só uma forma de conquistar o turista e nos fazer pagar a conta no final). Portanto, eu já sabia que o bar era só um qualquer, mas de todo jeito minha ideia nãoera ir. O cara me ofereceu de presente um charuto, recusei, mas ele insistentemente disse que era uma lembrança de Cuba para o Brasil. Aceitei. A menina era super falante, apaixonada pelo Kaká e pelo carnaval brasileiro. Se referia aos canais de TV locais como “Fidel 1”, “Fidel 2”, reclamava da falta de liberdade de expressão, mas enaltecia a segurança pública (segundo ela, 50% da população é policial).

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E aí, papo vai, papo vem, me contaram a vida difícil, falaram mal do do sistema, e disseram que possuem irmãos menores em casa, mas que não têm condições de comprar leite em pó. Ok, um pacote de leite em pó eu não ia recusar, ainda mais depois da conversa agradável e do charuto. Seria uma forma de retribuir. Fomos até o mercado, o cara fez o pedido ao vendedor, que me apareceu com uma caixa grande de papelão cheia de pacotes de leite em pó. 35 CUCs (35 dólares = na época pouco mais de 70 reais). Oi??? Nem sei de onde tirei tanto argumento para dizer que não podia, que não tinha, que não dava para ajudar… Dei 4 CUCs e fui embora.

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A segunda situação foi em um museu, o Castillo de La Real Fuerza. Num dos ambientes, a senhora (vigia, guia, não sei exatamente o que era) começou a falar comigo sobre Brasil, novelas e blá blá blá. Aí começou a fazer as vezes de guia, me falou tudo do museu, me explicou um monte de coisas, se ofereceu pra tirar uma foto minha até que, no fim, perguntou se eu tinha alguma nota de Real para dar a ela, pois ela coleciona moedas de outros países.

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Eu não tinha e confesso que fiquei até sentida. Mas aí ela falou então que podia ser CUC mesmo. Argumentei que só estava com notas grandes, ela disse que trocava. Olha, eles são muito insistentes.

Disse que não dava e saí. No andar de baixo, uma outra funcionária me abordou e falou algo de Real. Nem entendi e já respondi logo que não tinha. “Mas eu tenho”, ela disse. Tinha ganhado de um outro turista uma nota de R$ 2,00 e queria trocar por moeda cubana. Explicou que nas casas de câmbio local eles não podem trocar nenhuma moeda estrangeira, mas que ganham ‘propina’ (foi o termo que ela usou, acredito que não com o sentido pejorativo que usamos por aqui, mas sim como ‘gorjeta’) e fazem câmbio com os próprios turistas. Concordei em trocar, mas ela rapidamente me afastou da área onde as câmeras pudessem ver. Me senti uma contraventora!

Aconteceu também em uma escola. Era sábado e, passando pela rua, vi que estava aberta e tinha uma mulher. Perguntei se podia entrar, ela disse que sim e foi uma simpatia. Conversamos sobre as diferenças entre os sistemas de educação do Brasil e de Cuba. Essa escola era para crianças de cinco a 11 anos, com aula diariamente de 8h às 16h, podendo se estender até as 18h no caso de pais que trabalham/precisam. Isso acontece em todas as escolas. Ela elogiou muito a educação no país (é, ao lado da saúde e da segurança, um dos grandes orgulhos – senão os únicos – dos cubanos), mas falou também que o país está parado no tempo, que já estamos no século 21… num tom de lamento.

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Perguntou sobre a educação no Brasil. Falei da grande evasão, contei do Bolsa Escola, disse que há muitas crianças que param de estudar porque precisam trabalhar e ajudar seus pais e até mesmo de crianças que moram nas ruas e se drogam, roubam, etc. Ela olhava com espanto. São coisas que, por lá, não existem. No fim, depois de muito conversar e fotografar, me despedi e ela perguntou se eu não tinha algum dinheiro para doar à escola. Disse que não e perguntei se não era tudo mantido pelo governo. Ela respondeu que sim, mas que com o embargo econômico as coisas no país estão difíceis e as doações é que ajudam a comprar muitas coisas que faltam. Não entendi bem. E nem ajudei.

Esses são apenas alguns exemplos dos muitos que passei durante a semana. Assim fui conhecendo melhor, entendendo melhor, me adaptando melhor àquele lugar.

Para ler ouvindo:

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