O encontro que reuniu (quase) todos os descendentes do meu tataravô

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“Na vida, nós devemos ter raízes, não âncoras. Raiz alimenta, âncora imobiliza.
Quem tem âncoras vive apenas a nostalgia e não a saudade.
Nostalgia é uma lembrança que dói, saudade é uma lembrança que alegra”.

Escolhi essa mensagem do professor e filósofo Mário Sérgio Cortella para começar esse texto. Porque muitas vezes ouvi (ainda ouço) pessoas dizerem que eu não tenho raízes e isso sempre me incomodou. O fato de eu ter saído de casa cedo, de ter ido longe (e, por hora, não querer voltar), e de gostar de sair pelo mundo nunca significou que eu estivesse abandonando minha história. E acho que isso é meio que uma realidade de muitas pessoas! A gente vai atrás dos nossos sonhos, vai buscar novas possibilidades, vai para outras cidades – ou até estados/países, construir nossas histórias, cada um segue/faz seu caminho… Mas tudo isso só é possível porque a gente tem raízes que, como a frase diz, nos alimentam. Lembranças que alegram!

E tenho certeza que para as mais de 400 pessoas presentes no 1° Encontro dos Descendentes de Lucas Ferreira da Silva na Praça de Esportes de Araújos, Minas Gerais, as lembranças serão assim: alegres. Uma viagem no tempo!

Esse encontro foi idealizado pelo meu tio Beto (Roberto Mesquita) e organizado por ele junto com minha mãe, Alice, e também Solange e Soraia Azevedo, Kássia Nunes, Geraldo Amador e Ida Silva.

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Um pouco de história…

Lucas Ferreira da Silva foi o primeiro parente nosso nascido em Araújos, quando ainda nem era município. Seus pais, Joaquim Ferreira da Silva e Ana Clara de Jesus, chegaram por volta de 1801, época em que ainda era Mata dos Araújos, pequeno povoado às margens do Rio Lambari. Ao que consta, tiveram apenas dois filhos: Cesário e Lucas que, como o pai, trabalharam como ferreiros e comerciantes.

Lucas teve 15 filhos de duas esposas diferentes, Maria Celima e Maria Jacintha. Detalhe: as duas eram irmãs. Quando a primeira esposa morreu, a então cunhada ficou ajudando a cuidar dos filhos, sugeriram que se casassem e assim aconteceu. Praticidade é isso, né gente? 😛

Os 15 filhos eram: Francisco, José, Ambrosina, Maria Eugênia, Lucas, Amélia, Veríssimo, Antônio (Tunico Lucas), João, Alonso, Maria Celima (Celiminha), Salazar e Olympia (gêmeos), Francisca e Amador. Alguns morreram ainda crianças, outros não tiveram filhos… E alguns não tiveram seus familiares localizados. Acho que não tinham registro, então não tinha como encontrar agora pessoas já três ou quatro gerações depois.

Dos que se têm conhecimento, todos os descendentes foram convidados para o encontro. Isso foi feito através de grupos de Whatsapp e Facebook, e também de visitas e conversas com parentes mais velhos. E assim uns foram descobrindo outros, adicionando, mais gente foi se animando… Até que a festa foi marcada.

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Igreja de Araújos e, no detalhe, mastro com  bandeiras do Reinado (Foto cedida pela Fátima Mesquita Lara)

O meu parentesco no meio disso tudo

Agora prestem atenção que o negócio complica! Tunico Lucas tinha um irmão chamado Francisco (ambos filhos do Lucas). Francisco tinha uma filha (posteriormente mais conhecida como Madrinha Veia), portanto sobrinha de Tunico Lucas. Quando Tunico tinha 21 anos se casou com a própria sobrinha, que tinha 12. Fiquei em choque quando soube disso! Problematizei, mas, depois, fui entendendo que eram outros tempos, outros costumes, que não dá para julgar isso com as informações e a visão de mundo que a gente tem hoje. Fora que era um povoado bem pequeno – para terem uma ideia, a cidade de Araújos hoje tem cerca de 8 mil habitantes – então as pessoas acabavam se relacionando com parentes. Enfim…

Retomando a história familiar, desse casamento de tio e sobrinha nasceram vários filhos, entre eles uma chamada Mariazinha – simultaneamente neta e bisneta de Lucas. Essa Mariazinha é a mãe da minha vó Biloca, que é mãe da minha mãe Alice. Daí minha apresentação ficou assim: Sou Mariana, filha da Alice, neta da Biloca, bisneta da Mariazinha, trineta do Tunico Lucas e tetraneta do Lucas. Porém, sou também trineta da Madrinha Veia, e, portanto, tetraneta do Francisco e também pentaneta do Lucas. SOCORRO!!!

E tem mais! Eu sou, ainda, descendente por parte da Amélia, filha do Lucas e mãe do meu bisavô Pacheco – mais uma vez casamentos entre parentes, o que resulta nessa confusão. Se você não entendeu nada, tudo bem. Acho que nem eu entendi direito e pensar muito nisso dá um nó na cabeça… ahahah Mas vamos seguir que a festa teve bem mais do que as árvores genealógicas.

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A camisa e o crachá

O que teve no 1° Encontro dos Descendentes de Lucas

A festa começou às 10h da manhã e foi atéeee o início da noite! Não conto bem (piada interna – um dos antepassados, acho que meu bisavô, dizia isso quando queria explicar mais explicadinho)… Para muitos começou ainda na véspera, com uma serenata realizada por alguns parentes que se animaram a sair à noite num friiiiio que fazia e foram percorrendo a cidade cantando em várias casas (também de parentes, claro).

Agora sim, a festa. Eu fui convidada para ser a apresentadora. No palco, fui anunciando cada momento e chamando convidados. Tivemos mensagens do Padre Amarildo, Luiz Santiago (lida pelo seu irmão Pedro), Rosângela e Romilda Mourão. E partes da história da família lidas pela Soraia e pela Solange Azevedo (de quem “colei” para escrever esse texto – obrigada, Solange!).

Foram homenageadas a pessoa mais nova e a mais velha presentes – minha tia Dulce, de 91 anos (há parentes mais velhos que ela ainda vivos, mas não foram), e minha prima meio sobrinha Alice, de quatro meses (também há parentes mais novos que ela, mas também não foram). O único neto de Lucas ainda vivo, senhor Dodô, filho de Amador, mora em Belo Horizonte, mas não compareceu. Ah, e todas as pessoas com o primeiro nome Lucas foram convidados ao palco para ouvirem sobre a origem e significado desse nome.

Um dos momentos mais animados foi quando os nascidos em cada década foram à frente do palco – cada turma de uma vez – e cantaram uma música: até 1939 (Luar do Sertão), de 1940 a 49 (Meu primeiro amor), de 1950 a 59 (Pra não dizer que não falei das flores), 1960 a 69 (Canção da América), 1970 a 79 (Linda Juventude), 1980 a 89 (Pais e Filhos), 1990 a 99 (Fácil) e de 2000 para frente (Happy Day), fora outas músicas que as turmas também cantaram. Sempre com todo mundo acompanhando!

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Turma da década de 70 (Foto cedida pela Soraia Azevedo)

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Turma da década de 80 (Foto cedida pelo Ricardo Bueno)

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Família da Lucilaura Fernandes cantando “O bom mineiro” (Foto cedida pela Lucilaura)

A camisa feita especialmente para o encontro tinha uma imagem da Fazenda da Estiva – reprodução da pintura feita pela minha tia Branca. Foi nessa fazenda que todos os filhos de Lucas nasceram. Ela existia até poucos meses atrás (ainda que modificada), mas foi demolida recentemente.

Além da camisa, todo mundo também tinha um crachá com a identificação do parentesco até chegar ao Lucas. O nome de cada um dos 15 filhos dele tinha uma cor diferente. Para procurar os parentes mais próximos, era só buscar pelos que tinham a mesma cor.

Uma coincidência interessante é que no exato dia da festa, 29 de julho de 2017, minha avó Biloca estaria completando 100 anos. Aproveitamos a ocasião, já que ali reunidos estavam vários parentes dela e outras pessoas que também a conheceram, e prestamos uma homenagem. Minha prima Renata leu uma mensagem contando um pouco a história dela, que perdeu a mãe aos 18 anos, assumiu a criação dos irmãos, trabalhou muito, passou dificuldades… Depois se casou com meu avô Antônio Bueno e ficou viúva precocemente, com os sete filhos que tiveram.

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Irmãs, filhos, netos, bisnetos, sobrinhos… (Foto tirada pela Samara Rodrigues)

Ela faleceu em 2004, então foi uma pessoa com quem pude conviver bastante e tenho lembranças bonitas e muitas saudades. Foi um momento emocionante, mas muito feliz. Como a Renata disse, temos certeza que ela estava de alguma forma presente ali naquele momento, assim como muitos outros que já se foram…

E aí a festa seguiu com almoço, tira-gostos, cerveja gelada e uma boa pinga que não pode faltar (“boa” é jeito de dizer, porque nem bebo – só pra deixar claro rs). Para animar o pessoal, música ao vivo do cantor Pedro Goulart e o sanfoneiro Pedro Henrique, muita gente dançando, diversão total. Teve ainda sorteios de brindes (não ganhei nada, pra variar), parabéns aos aniversariantes de julho e leilões de produtos variados doados por familiares. E muita prosa boa, como a gente costuma falar!

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Confesso que não estava muito animada para ir (sou meio antissocial, gente, não me julguem), mas me surpreendi de forma positiva.

Foi um dia ótimo! Muitos encontros e reencontros bacanas! Gente que não víamos há muito tempo, ou que conhecíamos e nem imaginávamos que eram parentes, outros que só ficamos conhecendo no dia… A confirmação de que as semelhanças são muito maiores que as diferença e, principalmente, o encontro de cada um com sua história. Nossa história!

Para ler ouvindo:

* Foto principal: Aaron Gabriel

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