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Sobre os direitos das mulheres (e sobre o direito das mulheres viajarem sozinhas)

Este post não é sobre viagens. Ou, pelo menos, não só sobre isso. É sobre ser mulher no século XXI e sobre tudo o que a gente ainda tem de enfrentar todos os dias como se estivéssemos vivendo em 1920. É sobre ainda sermos julgadas por tomarmos nossas próprias decisões, pelas roupas que usamos e pelas experiências que decidimos viver – inclusive viajar.

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Para começar, quero deixar claro que não acho que toda mulher tem que viajar sozinha. Mas acho que toda mulher tem que ter esse direito. E quando falo em direito não falo em termos legais, que garantem que qualquer pessoa maior de idade viaje para onde quiser sem a necessidade de um acompanhante. Estou falando em termos sociais. De uma sociedade que ainda olha torto (para usar um termo bem leve) para as mulheres que fazem valer sua independência. De gente que ainda vê uma mulher sozinha como uma “presa fácil”. Ou como uma coitadinha. Ou como louca. E do medo da insegurança que isso ainda gera, por mais que a gente esteja a cada dia aprendendo a encarar.

Medo de não curtir, medo de algo ruim acontecer, medo de ser julgada…
Quem nunca?

Não há uma só vez em que eu viaje sozinha que eu não ouça algum comentário – ou muitos comentários – desse tipo. Me incomodam, não vou negar. Mas não me impedem de viver a minha vida e seguir fazendo o que eu quero. Isso vale não só para viagens. Vale (ou deveria valer) para toda e qualquer atitude na vida de uma mulher.

E sabe o mais louco? Já vi, e não foram poucas vezes, gente se referindo a mulheres em grupo dizendo “elas estavam sozinhas”. Não importa se duas, cinco, dez. Sozinha, que eu saiba, significa uma pessoa só. Mas a sociedade (olha ela aí de novo) ainda define “mulher sozinha” (ou “mulheres sozinhas”) como aquela(s) que estão sem um homem. Tem algo de muito errado quando, mesmo juntas, consideram que estamos sós…

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Tudo isso sem falar que, segundo dados da Action Aid, somente no Brasil: 86% das mulheres já sofreram assédio em público em suas cidades; a cada 5 minutos uma mulher é agredida (em 70% dos casos pelo parceiro ou parente); 13 mulheres morrem diariamente vítimas de violência de gênero; 35 são estupradas por dia; só durante o Carnaval, uma mulher foi agredida a cada quatro minutos no estado do Rio de Janeiro. E tantas outras que, por vergonha ou medo, não pedem ajuda e se calam. 🙁 Poderia ser sua vizinha. Sua amiga. Sua mãe. Sua irmã. Você. Ou eu.

Esses números mostram que não estamos seguras nem mesmo em nossas próprias cidades (muitas vezes nem dentro de nossas próprias casas). Por outro lado, mostram também que o risco realmente pode ser maior quando estamos em um território não conhecido e, principalmente, quando estamos sozinhas. E aí, a gente faz o que? Particularmente acho que deixar de viajar – ou de fazer o que for – não resolve. Até porque o erro não é nosso e não está na nossa atitude. A violência existe porque existe gente violenta.

Não importa o que as mulheres façam, vistam ou falem.
A culpa não é e nem nunca será da vítima.

A gente sabe mais ou menos alguns motivos que levam a isso, né? Nós mulheres, no geral, não somos (não éramos?) criadas para sermos corajosas, não somos estimuladas a enfrentarmos desafios. Somos silenciadas em nossas palavras e em nossa atitudes. Enquanto isso, os homens são criados para serem fortes e, muitas vezes, aprendem que esta força tem a ver com violência e com domínio; são ensinados que precisam ser dominadores e “pegadores”, como se o número de mulheres com quem um cara fica fosse sinônimo de virilidade (nem vou entrar no mérito do número de homens que uma mulher fica, porque aí é tema para outro textão e outro momento).

Acho que já passou da hora de começarmos a ensinar as meninas – e as mulheres! – a não serem (só) princesas e delicadas, mas a serem guerreiras, independentes, fortes e com autoestima. Mais ainda: já passou da hora ainda de começarmos a ensinar os meninos – e os homens! – a serem respeitosos, a permitirmos que sejam sensíveis e delicados, a mostrarmos que agressividade não é legal e que não se deve fazer nada (NA-DA) sem que haja o consentimento da outra parte. E para que isso mude, ainda que aos poucos, é preciso envolver não só as famílias, mas a mídia, a publicidade, a política, a escola, o mercado, e quem mais puder, porque o caminho é longo e a gente sabe que não é fácil.

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Mas voltando às viagens…

Há várias razões pelas quais uma mulher viaja sozinha. Nenhum amigo vai ter férias na mesma data, nenhum quer ir para o mesmo lugar, nenhum tem grana ou todos têm muito mais grana e seu orçamento é apertado, o(a) companheiro(a) não pode ou não quer acompanhar, a família já conhece aquele destino ou não tem o hábito de viajar…

E a mulher resolve ir assim mesmo. Porque ela pode. Porque ela quer! Esse é o principal motivo e o único necessário em toda e qualquer decisão! Assim como em outro momento, com todas as condições para ir e desbravar o mundo, ela resolve ficar, cuidando da casa… Por opção. E tudo bem também. Tá tudo certo. Porque embora muita gente ainda não tenha entendido:

Lugar de mulher é onde ela quiser!
É onde ela se sente bem, onde se sente feliz, onde pode ser ela mesma, inteira!

E aí quando chega o dia 8 de março começa uma avalanche de propagandas, promoções, mensagens… E eu paro para pensar: como assim? pra que isso? por que? isso muda efetivamente o que?

Claro que é bom receber homenagens (me mandem flores e chocolates, sim!). A questão é que, ainda hoje, grande parte dessas “homenagens” só reforçam os clichês dos quais tanto queremos nos livrar. Textos fofinhos por um dia e desrespeito no resto do ano? Não, obrigada. Agredecemos os parabéns, mas queremos mais que isso.

Queremos que cada mulher possa ter a liberdade de ser quem ela é. De usar minissaia sem ouvir grosserias. Escolher engravidar ou não sem ser menosprezada. Transar com quem e quando quiser sem ser taxada de vagabunda – nunca ser taxada de vagabunda! Escolher qualquer profissão de qualquer área sem ser desacreditada.  Trabalhar “como qualquer homem” sem ser enaltecida como se o fato de estar no mercado de trabalho fosse um diferencial. Ser remunerada de forma justa e valorizada profissionalmente. Abrir mão da vida profissional e optar por não trabalhar fora sem ser vista como “à toa”.  Não conseguir – ou não querer – cumprir tudo o que se espera (somos humanas, oras) sem ser rotulada como incapaz. Jogar tudo para o alto e desistir sem ser chamada de fraca. Se impor quando for preciso sem ser chamada de descontrolada. Dar opinião sem ser ignorada ou interrompida. Comprar muitos sapatos e bolsas e o que mais quiser sem ser chamada de fútil. Beber e/ou fumar sem ouvir que isso é feio para mulher. Gostar/entender e praticar futebol ou luta sem ser tida como masculina. Ou ser “masculina” (não performar feminilidade) sem ser ridicularizada ou invisibilizada. Deixar os filhos para se divertir sem ser vista como irresponsável. Levar os filhos com ela para onde for sem ser vista como imprudente. Poder ficar triste, chorar e se irritar sem ter que necessariamente estar na TPM. Não ter suas atitudes desqualificadas por estar na TPM. Ficar nervosa sem ser chamada de louca. Sentir cólica sem ser vista como fresca. Não fazer a unha, não usar maquiagem, nem tingir o cabelo sem ser apontada como desleixada. Amar fazer a unha e usar muita maquiagem sem ser apontada como superficial. Expor a sensualidade sem ser chamada de vulgar. Sair sozinha sem ser vista como vulnerável. Existir sem ser negligenciada. Viver sem precisar ficar se explicando ou tentando provar que suas escolhas são legítimas. Porque essas escolhas são individuais e nenhuma delas faz com que uma mulher seja superior à outra.

O que faz uma se sentir plena pode ser algo que nunca tenha passado pela cabeça da outra; a decisão que uma tomou para se sentir realizada pode não fazer o menor sentido na vida da outra; a atitude que uma julga ser até pecado é banal para a outra; a roupa que uma usa pode jamais entrar no armário da outra; e já está mais do que na hora da gente começar a se respeitar.

Se cada uma está feliz/segura com as próprias escolhas, nada mais justo que deixar que a outra também faça as escolhas dela. Ninguém precisa concordar, basta entender que cada uma sabe de si (“a dor e a delícia de ser o que é”) e parar de julgar. A gente sabe que a visão machista dos homens e da sociedade em geral ainda é predominante e, na maioria das vezes, até naturalizada e banalizada. Mas a gente precisa aprender que, ainda que com demandas/sonhos/pontos de vista diferentes, estamos (ou deveríamos estar) juntas nesta luta. Nós por nós!

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Então, fica o recado: sozinha, com o(a) namorado(a), com amigas(os), com a família, na roça, na serra, na praia, nos grandes centros urbanos, no Brasil ou exterior, solteira ou casada, com luxo ou simplicidade, na aventura ou na calmaria, no lazer ou no trabalho, no avião, ônibus, bicicleta, de carona, de dia, de noite, em casa, com filhos, quietinha… Que toda mulher possa fazer o que quiser, do jeito que quiser. Sem medo! Sem se sentir insegura, sem estar insegura e sem ouvir julgamentos. Que a cada dia haja mais respeito, igualdade, representatividade, visibilidade, empoderamento, liberdade e muito mais!

Que o Dia Internacional da Mulher, que hoje é uma data de luta, possa, em breve,
ser digno de comemoração!

Para ler ouvindo:

*Fotos: Pixaby / Foto principal: Designed by Freepik

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4 thoughts on “Sobre os direitos das mulheres (e sobre o direito das mulheres viajarem sozinhas)

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