Viajar muito não significa ser rica ou esnobe, mas sim fazer escolhas

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“Tá rica, hein!” Essa é a frase que mais ouço quando viajo, quando conto de alguma viagem, quando digo que meu brinco foi comprado numa feirinha de Amsterdam ou que amanhã tenho prova no curso de francês. Não, não sou rica, mas, e se fosse? Não entendo porque há pessoas que apontam a riqueza como algo negativo (mas filosofo sobre isso num próximo post). Hoje quero falar dessa cultura que aponta determinadas escolhas como sendo mais legítimas que outras.

Por exemplo: quando fiz minha primeira viagem internacional, para a Europa, perdi as contas de quantas pessoas se espantavam dizendo não só o já tradicional “nossa, tá rica heim”, mas também de quantos diziam “ai, que esnobe”. Esnobe por que? Em nenhum momento coloquei minha viagem como algo que me tornasse melhor que os outros. Essa visão vinha deles para mim. E me lembro perfeitamente de um detalhe: todas as pessoas que me abordavam com esses comentários tinham carro. Que, por mais popular que seja, custa mais caro que um mochilão pela Europa como o que eu fiz. Mas, dentro do que a sociedade estabeleceu como certo/errado, bacana/arrogante, ter um carro é ok, mas ir para a Europa é ostentação.

Fato é que meus interesses são, para muitos, considerados “exóticos”, ou, nas palavras de quem não consegue entender, “esnobes”. Viagens, línguas, cursos, livros… Sou louca por que pago 50 reais num livro, mas pagar 100 reais numa camiseta básica tudo bem. Sou esnobe porque gasto meu dinheiro em aulas de francês sendo que isso nem vai me dar uma promoção no trabalho (algo que socialmente legitimaria a escolha pela língua), mas gastar esse mesmo dinheiro para cuidar do cabelo é ok. Sou metida porque prefiro ver um filme ou uma peça de teatro que ir para a balada. Sou chata porque não ouço sertanejo, mas sim MPB das antigas. Sou chique porque faço um trajeto de uma hora de avião por 100 reais, ao invés de fazer o mesmo trajeto pagando 90 reais de ônibus. Casar e fazer uma megafesta de 50 mil reais (por baixo) tudo bem, mas fazer uma cerimônia só para família e amigos próximos em um resort por 1/3 desse preço é porque tá querendo aparecer, claro.

Entendam: não estou julgando quem usa seu dinheiro para comprar roupas, carro, construir casa, decorar apartamento, ir todo fim de semana para a balada, arrumar o cabelo, fazer festão de casamento, ouvir sertanejo, etc. Acho legítimo. Só não venham querer que isso satisfaça todo mundo e/ou achar que quem faz outras coisas é arrogante.

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O que acontece é que a forma como eu gasto meu dinheiro é vista como riqueza, enquanto outros, que às vezes têm até muito mais, mas o gastam em coisas mais comuns e “socialmente aceitas”, não são julgados. Daí sou arrogante porque falo francês, sou arrogante porque comprei tal coisa em Nova York, sou arrogante porque comi um croissant delicioso em Paris, sou arrogante porque assisto filme europeu, sou arrogante porque não pude ir à sua festa, estava aquele dia em Curitiba ou em Salvador, já nem me lembro. Será mesmo? Nunca disse, até porque não acho, que essas escolhas me façam ser melhor que os outros. São só escolhas que me fazem ser feliz.

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Nem sei se preciso dar explicações (não, não preciso)… Mas essa visão dos outros foi, para mim, durante muito tempo, um problema. Eu não me sentia inserida e me sentia mal por isso. Aí, com o tempo, fui trilhando meu caminho e, nele, encontrando referências, inspirações e afinidades. Hoje as pessoas com as quais me relaciono têm esses mesmos interesses e isso faz nosso convívio e amizade serem sempre engrandecedores, falamos sobre tudo isso sem nenhum tipo de julgamento. Adoro ouvir histórias de quem já viajou mais que eu, fala mais línguas do que eu ou uma língua diferente, etc.

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Que a felicidade vire rotina =)

Mas, com outros, eu às vezes acabava nem falando por medo de soar arrogante. Até que criei o blog, explanei tudo e, bom… a cada dia me pego me justificando que não, não fiz isso para causar inveja nas pessoas, que viajar não é coisa de gente rica, que eu trabalho, e muito, cinco ou às vezes até mais dias por semana, oito ou até mais horas por dia. Tenho 30 dias de férias anuais que posso dividir em duas partes. Além dos fins de semana e feriados. Nada muito diferente do cotidiano da grande maioria que, em tese, poderia fazer as mesmas coisas que eu. Mas não fazem. E tudo certo. É assim que a vida é. Só não reclamem, nem critiquem, nem se coloquem por baixo, por favor. Eu fiz minhas escolhas, optei por um estilo de vida que me satisfaz, como supostamente todas as pessoas também fazem (ou deveriam fazer).

E na próxima vez que me disserem “tá rica, hein”, vou responder que sim, estou. De histórias, de experiências, de conhecimento, de momentos inesquecíveis, de sonhos… Afinal, como diz uma frase que circula por aí, viajar é a única coisa que você compra e que te deixa ainda mais rica. 🙂

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PS: Só para esclarecer: sei  que o fato de ter um dinheiro a mais no fim do mês e poder optar entre a calça jeans de marca ou o fim de semana na praia, é um privilégio e que, para a maioria das pessoas, essa possibilidade de escolha sequer existe. É importante fazer esse recorte para entender melhor o texto.

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