Vivência na aldeia indígena Tehuhungu, no Parque do Xingu, Mato Grosso

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Tenho grande admiração pela cultura indígena. Gosto de ler e saber mais a respeito e tenho vontade de conhecer de perto alguma tribo. Recentemente soube da possibilidade de fazer uma viagem para uma semana de vivência dentro do Parque Xingu, no Mato Grosso. Entrei em contato para saber mais a respeito e acabei conhecendo a história da Natália Branco, organizadora da viagem e fundadora do Projeto Omama, que divulga cultura indígena através da educação e arte. Então a convidei para fazermos uma matéria contando mais sobre a experiência dela com os índios.

Natália mora em Campinas (SP) e seu projeto circula entre grande São Paulo, Campinas e região. Lendo tudo que ela escreveu fiquei ainda mais encantada pelo trabalho, pelas ideias e por tudo que ela fez e faz! Convido todos vocês a conferirem esse relato!

Vontade de ter contato com os índios

“Fiz Magistério e Pedagogia porque queria dar aula de história para crianças. Não concordava em ver como a história do Brasil era contada. Pouco se dizia sobre os indígenas e quilombolas. As imagens eram de Debret, não havia imagens atuais. Comecei a lecionar e vi que o problema era maior. Os professores não se interessavam pelo assunto e tinham muito preconceito. Comecei a estudar mais e a compartilhar com meus colegas de trabalho. Por todas escolas que eu passei, batalhei para que nossa história e nossa cultura fossem respeitadas e admiradas pelos alunos e professores. A cultura indígena me encantou, pois ela está viva. Não é algo antigo que temos apenas nos livros, ela está latente e presente. Há muitas aldeias no Brasil, todas batalhando por seu espaço e reconhecimento.

Quando comecei a estudar a fundo, percebi que os registros eram de acordo com o olhar de uma outra pessoa. Eu queria compreender, aprender, a partir do meu olhar. Decidi entrar em contato com indígenas. Usei a internet para achá-los. Foi muito emocionante, para mim, receber mensagens no celular de um Karajá de Tocantins ou de um Aweti do Xingu. Percebi que esse contato era possível. Então eu quis mais, quis vê-los de perto. Viver a vida deles, nem que fosse por um dia.”

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Borboletas às margens do rio no parque Xingu

Início da convivência

“Como eu disse, me aproximei deles pela internet. Comecei a colocar na procura nome de etnias: Karajá, Caiapó, Kalapalo… e a chamá-los para conversar comigo. TODOS foram muito atenciosos. Com essa nova rede de amigos, conheci a Samantha, que é Kalapalo e que leva turistas para a sua aldeia.

A família mora na aldeia e na cidade. O projeto deles é levar turistas para fazer esse intercâmbio e levantar fundos para melhorar a aldeia. Eu apresentei meu projeto para a Samantha. Ela estava organizando um grupo para participar da abertura da oca dos homens então me convidou para ir junto.”

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Natália e Samantha Aweti Kalapalo em Embu das Artes. Samantha e sua família vendem artesanatos na feira do Embu.

Visita ao Parque do Xingu

“O trajeto até Canarana, a cidade mais próxima do parque, foi por minha conta. Fui até Goiânia, de lá peguei um ônibus até Canarana (12 horas de viagem!) e, de lá, Samantha me buscou e fomos até a aldeia. Duas horinhas de carro. Cheguei lá no dia dois de maio e voltei dia sete.

Eu fui sozinha. Levei equipamentos para filmar e fotografar o máximo possível, pois queria compartilhar com todos quando eu voltasse. Meu único objetivo era APRENDER. O que fosse! Cozinhar, plantar, dançar… Queria viver cinco dias como eles vivem. Como eu disse, Samantha estava organizando um grupo. Eram apenas duas pessoas que foram com o mesmo intuito que eu. Então conseguimos nos alinhar e “viver” juntos.”

 

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Escola na Aldeia Tehuhungu

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Uma menina indígena participando do ritual com pintura e adereços

Como foi a experiência

“Eu não sabia o que esperar. Eu não sabia quantas pessoas viviam lá, como era dormir em uma oca, como seria a alimentação deles. Propositalmente eu não levei nenhum alimento da cidade, então me arrisquei! Difícil eu dizer se foi melhor ou pior do que eu esperava porque eu não criei expectativas. Me preparei apenas para as picadas de insetos! (risos)

O mais difícil em termos práticos foi não ter banheiro. Na região há muitas cobras, é comum você andar e ver uma cobra passando. A maior aventura do dia era ir fazer as necessidades (risos).

O ambiente, toda a natureza em volta, te envolvem tanto que você esquece de celular, televisão ou energia elétrica. Você não sente necessidade de nada disso.

Depois do terceiro dia na aldeia é que eu senti a energia do lugar. Todos que vivem lá ficaram mais à vontade, se arriscaram em falar português conosco, brincar a noite em volta da fogueira, contar histórias na rede à noite… Me senti parte da família.”

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Natália pronta para o ritual. Atrás, índigenas na aldeia Tehuhungu se preparando para dançarem. O colar que ela está usando é típico do Xingu.

Turismo em aldeias

“Somos brancos e eles indígenas. No parque do Xingu algumas aldeias são abertas aos brancos. Existem vários projetos que circulam entre as aldeias, como de saúde e educação. A Funai também é bem presente na região. Acredito que se formos convidados, como eu fui, não há problema. Estamos ali para aprender com eles e não para ensinar algo. O problema é que nós somos gananciosos e, quando vemos a fragilidade e até ingenuidade de alguns indígenas, nos aproveitamos.

É preciso que a visita seja organizada, pois você, como turista, precisa de uma autorização da Funai para entrar no parque. Depois de ter ido e me aproximado muito da família, eu me ofereci para acompanhar turistas. Faço essa ponte entre brancos e indígenas. Divulgo, tiro dúvidas, organizo a documentação e (quando possível) acompanho o grupo. A partir do momento em que uma pessoa me confirma, eu passo para o indígena responsável e ele que cuida de tudo. Essas visitas ajudam aos índios, pois o lucro desses grupos é dividido entre as famílias que vivem na aldeia e eles aproveitam o público para venderem artesanato.”

Artesanato indígena na Aldeia Tehuhungu: esteira de buriti e lã

Projeto Omama

No início desse ano li o livro “A queda do Céu”, que conta a trajetória de vida de Davi Kopenawa, da etnia Yanomami. Ele conta toda trajetória sofrida de seu povo e sobre o seu “Deus” que se chama Omama. Para nós seria um “Deus”, mas, para eles, é além. Não é um ser onipresente, mas é um ser criador, preocupado com a terra, com a sobrevivência e harmonia de tudo e todos. A leitura me tocou muito. Decidi então ir além da escola em que eu trabalhava, além do meu grupo de amigos, com meu conhecimento e paixão pela cultura brasileira.  Escolhi levar Omama comigo em meu projeto.

Omama oferece palestras, cursos para professores, oficinas culturais temáticas e ateliês de arte indígena para todos que se interessam pelo assunto. A lei nº 11.645 de 2008 exige mais cultura indígena e afro brasileira nas escolas, mas nada mudou. Alguns professores me procuram com um conteúdo específico e eu produzo um material de apoio para a aula, uma vez que nossos livros didáticos são limitados nesse assunto.”

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Omama Ateliê de arte indígena: Bonecas Karajá

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Omama Oficina cultural, tema: Artesanato indígena com argila

Questão indígena hoje

“Há retrocesso e muita batalha. Basta a gente abrir um pouquinho os olhos que vamos ver que os índios estão lutando, diariamente, por dignidade e respeito.

O maior atraso que eu vejo é em nós, população brasileira “civilizada”, que não faz nada para mudar nossa realidade injusta e julga aqueles que estão na luta. Somos todos filhos dessa terra, deveríamos nos unir e batalhar juntos. Queremos a mesma coisa: respeito.

Seja mais brasileiro, conheça a SUA cultura. Ela é viva! Vá conhecer esse Brasil enorme, cheio de peculiaridades. Nossa terra é fértil, aqui cresce muita vida!”

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Índios de diferentes etnias dançando na abertura da oca dos homens

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Visita a aldeia em Manaus – Amazônia (2013)

Mais informações:

“Quer ver o que estou estudando, vivendo e aprendendo? Quem eu conheci, as aldeias que fui e ainda vou? Quer visitar uma aldeia? Quer ver o que é um ateliê de arte indígena, minhas oficinas e cursos?”

Acesse o Facebook, Instagram e, em breve, o site: omamabr.com.br
Dúvidas? equipeomama@gmail.com
Site da Aldeia: aldeiatehuhungu.com.br

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