“Experimentando lugares e maneiras de viver” – por Graziella Saft

“Sempre gostei de narrativas que têm viagens como pano de fundo. Graças a elas, já me imaginei várias vezes em um carro estiloso andando sozinha por uma estrada deserta enquanto ouvia Lynyrd Skynyrd, parando por hotéis baratos e desenvolvendo diálogos profundos com pessoas aleatórias. No entanto, a realidade das viagens que já tive a oportunidade de viver foi diferente do que este modelo hollywoodiano, mas não menos interessantes. O que fica em comum, neste caso, é o que busco em minhas viagens: experiências. E é sobre algumas delas que pretendo falar nos próximos parágrafos.

Em julho deste ano vivi pela segunda vez a experiência de viajar sozinha. Desta vez, viajei por seis cidades de Minas Gerais: Belo Horizonte, Brumadinho, Ouro Preto, Mariana, São João del Rei e Tiradentes. Tenho certeza que muitos blogs de viagens têm conteúdos preciosíssimos sobre roteiros para estes lugares, por isso, não pretendo discorrer sobre os pontos turísticos que visitei nestes destinos. Aliás, tenho declarada aversão a metodologias em geral e isso inclui elaborar um roteiro de viagem. Em minha vida, procuro planejar o mínimo necessário e ver o que acontece. Segui a mesma ideia nas viagens que fiz sozinha.

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O principal problema que vejo ao planejar uma viagem à risca é a incapacidade que temos de lidar com o imprevisível, seja ele bom ou ruim. Imagine que você está caminhando em direção a um ponto turístico e passa por uma feirinha de artesanato e comidas típicas, mas acha que não pode “perder” tempo ali pelo fato de não estar nos seus planos? Ou uma viagem que você considera um desastre porque choveu durante todo o tempo e te fez ter que mudar a programação? Por uma perspectiva otimista (e eu sou extremamente otimista), gosto de dizer que as cidades nasceram para ser vividas. Naturalmente, cada pessoa tem um estilo de viagem e vai procurar fazê-la da maneira que mais lhe agrada. Não é diferente comigo, e o que me agrada ao viajar é “experimentar” a cidade com tudo o que ela pode me oferecer, comendo a comida local, interagindo com as pessoas locais, procurando conhecer costumes e práticas locais, visitando lugares que não sejam necessariamente turísticos, assim por diante.

Ainda não conheço uma maneira melhor de se fazer trocas culturais do que o Couchsurfing, o sistema de hospedagem que utilizei em minhas viagens. Esta rede social reúne viajantes que estão em busca de hospedagem e anfitriões que se dispõem a recebê-los em suas casas, gratuitamente. Meu primeiro contato com ela foi através de amigos que a usam para hospedar pessoas. Conheci alguns viajantes incríveis e fui mordida por este espírito de aventura, até que resolvi começar a utilizá-la também. Como falei anteriormente, cada pessoa tem um estilo de viagem e seu próprio conceito de diversão, então é bem provável que não agrade a todos. Eu já sou fã de carteirinha.

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Lagoa da Pampulha

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Vista de Belo Horizonte

A principal vantagem de ficar hospedada por esse sistema não é a hospedagem em si, e sim a experiência proporcionada por estar com alguém que vive a cidade diariamente. Como não sou fã dos roteiros, adoro seguir as dicas que recebo dos anfitriões, que muitas vezes têm olhares muito diferentes sobre os pontos turísticos de onde vivem. Já fui hospedada por gente que cozinhou comidas típicas para mim, me apresentou música local e me levou a lugares nada turísticos, mas não menos inesquecíveis. Todas essas foram atividades que jamais teria se tivesse programado uma viagem nos moldes tradicionais. Couchsurfing é a maneira que encontrei de conhecer a cidade pelos olhos de outra pessoa.

Evidentemente, há a vantagem de não se gastar dinheiro com hospedagem, mas já aviso: não procure nesta rede social um “hotel grátis”. Na maioria das vezes, é necessário abrir mão de conforto. Já dormi em sofá, em rede, em colchonete. Já dormi sem cobertor, sem travesseiro, já tomei banho frio, mas ainda assim não troco a experiência por nenhum hotel 4 estrelas. Recomendo que todo mundo experimente por pelo menos uma vez, pois, na pior das hipóteses, o que sobra é uma boa história para contar.

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Ouro Preto

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Mariana

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São João del Rei

Agora a parte chata, mas que é bom avisar para não precisarmos aprender da pior maneira: se você é mulher e estiver indo completamente sozinha, recomendo que não fique hospedada com homens sem referências de outros viajantes. Já usei o Couchsurfing para me hospedar sozinha na casa de homens, mas com referências. Certamente isso não impede que algo ruim aconteça, mas diminui drasticamente as chances para tal. As referências do site são confiáveis, pois ninguém pode excluí-las nem alterá-las. Além disso, outro cuidado importante é o campo “preferência de gênero”. Nunca havia ligado para ele até perceber que, estranhamente, alguns homens informam que têm preferência para gênero feminino. Oras, o objetivo da rede social não é o intercâmbio cultural? Que importância o gênero tem? Obviamente, a situação muda um pouco se quem estiver informando a preferência pelo gênero feminino for uma mulher que não deseja um homem em sua casa.

Leia outras histórias inspiradoras de mulheres viajando sozinhas.

Quando falo de minhas andanças, o que mais me perguntam é se não sinto medo de viajar sozinha. Nunca sei ao certo o que responder, pois a gente sente medo… quase que o tempo todo. A pergunta deveria ser se sinto mais medo do que o habitual. A resposta nunca é precisa, mas é sincera: um pouco, às vezes, depende. A gente passa por cima de tanta coisa nas nossas rotinas, então faço o possível para não deixar que meus medos me limitem de fazer o que tenho vontade. E essa é a principal lição que viajar sozinha tem me passado.

Dia desses, ao reclamar para uma amiga que estava sem companhia para ir a um show a que queria assistir, ela perguntou por que não iria sozinha e respondi “sei lá… sozinha?”. Foi aí que percebi. Tinha acabado de voltar de uma viagem de quase quinze dias sozinha e estava podando a minha vontade de ir a um show. Em qualquer situação, adoro ter a sensação de que não preciso esperar por ninguém para fazer seja lá o que for.

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Museu do Inhotim, em Brumadinho

Fazer qualquer atividade sozinha me encanta, de maneira geral, por dois motivos. O primeiro é o fato de que a pessoa que se propõe a encarar algo sozinha (desde plantar um pezinho de hortelã até criar um filho ou desenvolver um experimento científico) transmite para mim uma imagem muito positiva de determinação, autossuficiência e empoderamento. O segundo é que, até pouco tempo atrás, jamais me enxergaria no caminho de desenvolver essas características que tanto aprecio em outras pessoas. Hoje, me sinto nesta direção.

Nestes dias de viagem, passei por tantas pessoas incríveis e não quero acreditar que foi sorte ou mero acaso. O que venho sentindo é uma sensação muito gostosa por ter conseguido restabelecer a fé na humanidade, sabendo que o mundo ainda está repleto de gente disposta a deixar as coisas em uma situação um pouco melhor do que recebeu. Quanto mais eu conheço as pessoas, mais eu gosto das pessoas! E acho que de mim também, no fim das contas.”

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Mais algumas paisagens mineiras e Graziella com uma amiga que conheceu em um intercâmbio

Texto: Graziella Kassick Saft
Fotos: Arquivo Pessoal

Já viajou sozinha e quer ver seu relato publicado aqui?
Me escreve no mariana@marianaviaja.com

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