Teremos mesmo um mundo novo e diferente depois da pandemia?

Cheguei a começar este texto com o título “O futuro não é mais como era antigamente”. A ideia de pegar a frase de uma música da Legião Urbana veio por achar que ilustrava bem toda essa incerteza em relação a um possível mundo novo depois que a pandemia do coronavírus passar.

Em um dos meus textos mais recentes, sobre os altos e baixos desse período – Um dia de cada vez: solidão em tempos de pandemia – tinha encerrado falando sobre o querer voltar ao normal. A gente não sabe quando será. Como será. Ou até mesmo SE será. O que chamávamos de normal ainda existe?

Na letra de Renato Russo, reflexiva e cheia de metáforas como tantas, a ideia era fazer um paralelo entre os sentimentos dele e o período da chegada dos portugueses ao Brasil. Daí o título, “Índios”. A colonização e a insegurança de como as coisas seriam dali para frente. Melhores? Piores? Era preciso viver para saber. Ninguém tinha a resposta. Como hoje também não temos.

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O tal do novo normal

Há quem diga que o mundo nunca mais será o mesmo, já que estamos passando por um acontecimento histórico que irá impactar a humanidade por muitos e muitos anos. Doutor Dráuzio Varella falou sobre isso em uma entrevista ao site UOL e afirmou que “a vida normal não vai existir por muito tempo. Não vai ser normal porque não poderá ser. Daqui a quanto tempo vai acontecer? Não tenho ideia, ninguém tem ideia”. O biólogo Átila Iamarindo, estudioso do vírus, durante sua participação no programa Roda Viva, também falou que “não é que o mundo não vai voltar a ser o que era, mas não é para ele que a gente vai voltar. Mesmo com pessoas querendo voltar ao que tinham antes, tendo uma sensação de perda, isso não vai acontecer nem de imediato e nem depois”.

O líder indígena e ambientalista Ailton Krenak, no ensaio “O amanhã não está à venda” (publicado pela Companhia das Letras a partir de algumas entrevistas recentes), disse que as mudanças já estão em gestação. “Tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro.”

Eu sigo uma linha de pensamento parecida com a deles. Mas, ao mesmo tempo, acho tudo muito utópico. O admirável mundo novo já foi idealizado algumas vezes e ouso dizer que nunca aconteceu de fato. Seria agora?

No programa Papo de Segunda, do canal a cabo GNT, o cantor Emicida questionou se “a gente quer ser melhor para ser um ser humano melhor ou quer ser uma engrenagem melhor de alguma outra coisa?”. Ele falou, ainda, sobre a suposta mudança: “o momento, por si só, por mais traumático que seja, não tem força pra fazer o povo se tornar melhor e mais solidário; não é uma máquina para entrar mastigado e sair lindão… a gente vai sair mastigado e traumatizado. Essa construção da solidariedade tem de ser baseada em outras coisas, não pode estar vinculada a uma pandemia. É preciso entender como a gente se relaciona, consome, mora, e como as outras pessoas fazem tudo isso”.

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Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Mas e ali fora?

Basta abrir uma pequena fresta da minha bolha (nem preciso sair dela) e vejo as sinhás do século XXI que se recusam a passar um pano na casa e não abrem mão de suas faxineiras, se expondo a riscos, mas, principalmente, expondo outras pessoas, que sequer podem dizer não, e tendo suas atitudes chanceladas por uma herança escravocrata tão enraizada que muitas vezes nem é vista assim. Vejo uma pseudo elite que não deixa de gastar e ostenta nas redes tentando exibir sua superioridade.

Vejo estabelecimentos que aos poucos vão reabrindo, todos com clientes afoitos por voltar a consumir. Bares, pousadas, lojas… Penso que pode haver até um “efeito rebote” quando tudo passar, de tanta gente querendo comprar qualquer coisa que seja. Os supérfluos serão ainda mais valorizados. É só ver que já tem grife famosa vendendo máscaras por preços absurdos e obviamente tem gente comprando. Até o “sentir falta de” é algo que escancara os privilégios.

E aí cheguei à conclusão de que talvez o futuro seja, sim, igual ao presente ou ao passado recente. O que me dá uma angústia, um desânimo e até uma raiva, porque por alguns momentos eu realmente imaginei que tudo isso deixaria as pessoas menos egoístas, menos consumistas e mais conscientes economicamente. Achei que lidar com a própria solidão (ainda que acompanhada), conviver com os próprios fantasmas, administrar distâncias e preocupações, traria uma nova compreensão da vida – mas tem gente que nem está cumprindo o isolamento! Eu acreditei, mesmo, que muitos iriam repensar suas prioridades no pessoal e no profissional, que entenderiam o peso das desigualdades e a necessidade de um mundo mais justo e igualitário.

Não que isso fosse um benefício do coronavírus, como alguns gostam de colocar. Pelo contrário. Não há lado positivo, há milhares de mortos, de doentes, de desempregados, não há o que agradecer, não há lição. Mas poderia, sim, ser uma circunstância que nos tornaria melhores, mais responsáveis, que faria com que saíssemos desta transformados. O que eu duvido muito. A pandemia colocou uma lupa sobre a realidade, escancarou as diferenças sociais. Se vimos um lado bom, humanitário e colaborativo, vimos também a precarização do mercado de trabalho, a violência doméstica, a sobrecarga de mulheres/mães, a solidariedade sem desejo de justiça social, o individualismo, o elitismo, a futilidade, a falta de empatia e uma lista extensa de problemas aparentemente sem solução. E a gente se acostuma. Se adapta. Por sobrevivência.

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Imagem de Pexels por Pixabay

O depois…

Nessas horas sempre lembro que Millôr Fernandes dizia que é melhor ser pessimista que otimista, porque o pessimista fica feliz quando acerta e quando erra. Talvez seja o meu caso. E do Emicida também – então pelo menos estou bem acompanhada.

Mas sei que ainda é cedo, claro. Ainda há tanto para acontecer. Não dá para bater o martelo ao falar sobre uma mudança ou não de paradigmas, não dá para determinar que vai ser assim ou assado, não tem como afirmar que o mundo vai ser o mesmo ou outro ou que as pessoas vão mudar, como se fosse uma verdade universal. As pessoas quem? Fora a infinidade de realidades diferentes que existem.

Para muitos pode ser, sim, tudo de uma nova forma. Há quem já esteja precisando (e conseguindo) se reinventar. Já alguns não sentiram nada, nem mesmo no psicológico, quanto mais na prática. E impacto financeiro é o que? É não ter mais comida na mesa ou não poder mais viajar com frequência? Enquanto para uns já está diferente, mesmo que seja nas sensações, para outros tudo segue e continuará seguindo do mesmo jeito como sempre foi.

Acho que Renato Russo é que estava certo – se não no título, pelo menos no encerramento: “Nos deram espelhos e vimos um mundo doente.”

Para ler ouvindo:

Foto principal: Arek Socha por Pixabay

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