Um dia de cada vez – solidão em tempos de pandemia

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A xícara escorrega da minha mão e, antes dela se estraçalhar no chão, acordo no susto. Ainda ofegante vejo que são 23h. Tinha sido só um cochilo na ilusão de que ia conseguir dormir mais cedo. Ou que ia conseguir dormir. Apenas.

Dia 19 de sei lá quantos que ainda virão. Daqui de dentro eu olho o mar e o céu e agradeço por esse privilégio. Não faz muito tempo (e por muito tempo) eu morava em um espaço apertado, com só uma janela de fundos, sem sol, sem nem céu. Me mudei de cidade, mudei tudo na minha vida, ainda estou em processo de adaptação e de me entender nesse contexto todo aqui – e isso antes dessa situação atual. Porque eu precisava viver com qualidade!

Mas quantos não podem? Quantos confinamentos estão mais difíceis por causa disso? Quantos sequer têm onde morar? Falta teto, comida, falta solidariedade e senso de coletividade. É tanta, tanta, tanta coisa que passa pela cabeça. Nesse momento tão à flor da pele é impossível não ser tomada por muitas sensações. Não sei como lidar com elas. Sei que, quando preciso respirar ou conter meu choro, eu tenho essa vista para olhar… E eu escrevo!

Dia 1. Eu não tinha planejado o isolamento. As notícias já chegavam, mas ainda não eram preocupantes. Passei o fim de semana fora e, no domingo à noite, ao voltar, caí na real. Na segunda já começavam a valer decretos em alguns estados/cidades. Era sério. Fui ao mercado e me programei para ir no máximo uma vez por semana. Já tinha o hábito de trabalhar em casa, já tinha essa rotina, mas o não poder deixava tudo diferente. Fora a angústia. As preocupações.

Solidão a um, a dois, a três, a quantos couberem no seu espaço de quarentena. Solidão acompanhada, solidão conjunta, solidão com medo, solidão responsável, solidão de tédio, solidão com saudade, solidão por perder o direito básico de ir e vir. Solidão sufocada. Solidão sobrecarregada. Solidão à distância.

Dia 8. Senti fisicamente. Não foi preciso mais que uma semana para somatizar o estresse. Todo mundo ainda tentando entender, eu tentando explicar. Desmentindo supostas notícias, enviando informações, compartilhando vídeos de outros países para tentar ilustrar, publicando dados alarmistas. Lidando com a ansiedade de não saber o que viria (o que virá!). Desfazendo planos. Tentando manter algum controle sobre os outros, tentando dar algum suporte. Exausta! Comecei a tentar baixar a guarda e entender o que eu precisava soltar. Eu não ia conseguir cuidar de todo mundo, conscientizar todo mundo. Que cuidasse, pelo menos, de mim. Cantarolei mentalmente “Meu Jardim”, do Vander Lee e, desde então, é a música que ecoa na minha cabeça quando penso em todo esse período…

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Dia 14 ou 12 ou 10 talvez e eu já tivesse me perdido na contagem do tempo. Parei com os noticiários – eu já sabia que os números seriam crescentes a cada dia e de alguma forma tudo isso chegaria a mim, eu não precisava ir atrás. Comecei a ler notícias boas e textos confortantes. E a compartilhar boas ações e pedidos de ajuda. Ri em conversas com amigos. Chorei em outras e isso fazia bem também. Comi bolo de chocolate. Vi shows pela internet. Já dava quase para conjugar o verbo relaxar na primeira pessoa!

E aí veio aquele tsunami em forma de pronunciamento oficial, minimizando os fatos, ridicularizando os cuidados. E, além da revolta, veio de novo todo o estresse porque parecia que tudo tinha voltado ao início. Explica de novo, desmente de novo. Surta de novo!

A sensação é de estar sozinha numa montanha russa enorme – daquelas que eu nunca tive coragem de ir. De repente o carrinho sobe, você acha que não vai aguentar, ele desce, você se desespera, ele faz um looping, vira tudo de cabeça pra baixo e, quando você vê, está de novo numa subida ainda mais alta. Sem fechar os olhos para não perder nada. Sem soltar o cinto, senão a gente cai. E ninguém sabe quantas voltas ainda faltam até que a gente possa parar e respirar.

Até lá as pessoas terão entendido que, para além da gravidade do vírus, o individualismo não tem mais vez? Até lá terão entendido que suas saudades e suas vontades de espairecer um pouco não são mais legítimas que as dos outros?

Porque se cada um for, individualmente, resolver sua saudade, só a sua, só uma saidinha, só receber alguém, aí não é mais quarentena. Eu sei que não é fácil colocar o coletivo acima das questões individuais, mas é esse o desafio. E eu simplesmente não aguento mais implorar que as pessoas tenham responsabilidade. Quem me ouve? Quem me ajuda a gritar? Solidão de Dom Quixote lutando contra os moinhos de vento.

Um dia de cada vez. Álcool gel. Água sanitária no chão. Nome na lista para colaborar com moradores velhinhos no prédio. Meditação. Alongamento. Choro. Raiva. Axés antigos porque o vizinho ouve e eu acho bom. Filmes. Saudade. Preocupação. Biquíni. Sol na varanda. Stories no instagram. Insônia. Produtores de conteúdo sem noção. Livro. Ansiedade. Bolacha recheada. Ócio em meio à pressão pela produtividade. Big Brother. Conversas. Risadas. Surto. Frustração. A mão que cuida às vezes é vista como a mão que prende.

Eu sei que todo mundo só quer poder voltar ao normal. Mas não existe mais o normal. E a gente não faz ideia de como vai ser o momento de poder viver a vida novamente. A gente não sabe quando. A gente não sabe como. A gente não sabe se! Na melhor das hipóteses estaremos todos aqui, inteiros, com nossos familiares e amigos vivos. Porém, colando os caquinhos por dentro porque não terá sido fácil. O isolamento, a distância, o não poder estar perto, a falta de contato humano. O caos lá fora, o medo, a morte. Ninguém vai sair igual depois disso tudo. E que bom! Tomara que a gente mude mesmo! A gente precisa mudar. A gente vai estar junto de novo e criar novas formas de viver. Voltaremos melhores. Agora, se tudo isso não está servindo para te fazer repensar, refletir e ressignificar um monte de coisas, aí eu realmente não sei o que dizer…

Dia 20. Ainda nem começou. Ou eu é que talvez já esteja enlouquecendo.

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