Visita inesquecível e transformadora a uma Comunidade Quilombola em Brumadinho

Quem conversou comigo nos últimos dias me ouviu falar de Dona Leide, da sua comida, da sua fala mansa, mas forte, do seu canto acompanhado pelo som da peneira com feijão. Me ouviu falar também do Rei Batuque, do seu ativismo, sua determinação contagiante com o projeto cultural/social que desenvolve com as crianças. E, ainda, me ouviu falar do Seu Cambão, da sua simpatia ao recepcionar cada turista com um aperto de mão e um abraço, da sua importância histórica para a comunidade onde vive e, ao mesmo tempo, da sua simplicidade.

Sim, eu voltei meio monotemática depois do dia de vivência no Quilombo de Marinhos, onde conheci Dona Leide, Seu Cambão e o filho Rei, os três na foto acima. Voltei empolgada com tudo o que vi. Mais que isso: voltei transformada. E tenho certeza que acontece com todo mundo que tem a oportunidade de fazer esse passeio, que é um verdadeiro aprendizado. Cada um é tocado de uma forma, por diferentes motivos, mas é impossível não sair de lá diferente do que quando chegou!

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Marinhos é uma das quatro comunidades quilombolas na região de Brumadinho, em Minas Gerais – cidade que ficou famosa por causa do museu do Inhotim. Mas a ideia do projeto “De rolé por Brumadinho”, que convidou a mim e a outros produtores de conteúdo para esta viagem, é exatamente mostrar que há muito mais para fazer por lá. Entre os passeios oferecidos estão cachoeiras, tour por bares e essa visita que, para mim, foi a mais especial.

Chegamos pela manhã e fomos para a casa da família (é linda, toda florida!), onde Rei começou a contar um pouco mais sobre seus projetos com as crianças.

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Rei, o tambor e as crianças na porta de sua casa no Quilombo de Marinhos

Ele é artista e desenvolve várias ações com o objetivo de fomentar e fortalecer a comunidade, pensando ações coletivas que resgatem as tradições quilombolas, que remetem também ao congado de Moçambique. Mesmo viajando com seus shows, optou por viver lá e, através do seu trabalho, mostra a força cultural que a comunidade tem. Como é difícil que os locais saiam de lá, ele leva outras pessoas para conhecer, promovendo uma troca de saberes.

Enquanto isso dona Leide finalizava o almoço, que logo foi servido. Angu, feijão, arroz e frango com ora-pró-nobis, tudo com o melhor tempero que é o sabor de comida caseira, esse não tem igual (se forde casa mineira então, hummm…). Para beber, sucos de couve e de acerola, tudo do quintal.

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Dá fome só de olhar…

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Seu Cambão almoçando e contando uns causos

Depois de almoçarmos, Rei foi nosso guia até o Quilombo do Sapé, que fica a alguns quilômetros de distância. Outras comunidades quilombolas da região são Ribeirão e Rodrigues, que não chegamos a conhecer.

Pelo caminho de terra batida, muitas histórias. Eu às vezes ficava mais devagar com a turma de trás, mas logo corria para ficar bem na frente e não perder nenhuma informação! Tudo era tão interessante, não dava para deixar passar. No Sapé, frutas que colhemos para comer na hora e mais algumas famílias que pudemos conhecer e conversar. Na volta, o café de; já estava servido, com rosquinha caseira (adoro!!!) e chá de folhas de limão.

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Igrejinha da Comunidade do Sapé vista ao longe durante o percurso do caminho

Rei pegou seu tambor e nos presenteou com a apresentação de algumas músicas de sua autoria e outras conhecidas do cancioneiro popular. Dona Leide o acompanhou com sua peneira de feijão. Fiz uns videozinhos para o Stories do Instagram e, agora, juntei tudo (no fim do texto) – não está muito bom, mas dá para ver um pouco. É lindo ver como o barulho se encaixa no ritmo como se fosse mesmo um instrumento musical. Como ela diz, “fazer do alimento um instrumento”. Ela contou também sobre a “Festa da Colheita”: Tudo começou há 37 anos quando algumas famílias da região estavam passando necessidades. Para ajudar, ela e Seu Cambão criaram o projeto “Quem planta e cria tem alegria”, que consiste em reunir um grupo para plantar (milho, feijão e outras sementes) nas terras de fazendeiros e, depois da colheita, que é anual, cada família fica com uma parte que pode ser usada para o consumo ou vendida (o dono das terras leva sua parte também).

Para comemorar e agradecer, no mês de julho fazem a festa, que dura o dia todo, com missa, música, dança, doces de várias qualidades e, no almoço, servem os mesmos pratos que serviram para nós na nossa visita. “Quando eu era criança vivíamos com dificuldade. Não tinha arroz nem carne todo dia. Era feijão, angu e verdura. Aprendi a comer de tudo, senão ficava com fome. Depois, com o projeto, muitas famílias não tinham comida, então dividíamos – cada uma só tinha uma coisa e nos reuníamos para comer juntas. Com a colheita a gente vê a importância da multiplicação. Um grão plantado vira vários, é a beleza da natureza. Na festa a gente celebra a vida, é um agradecimento pelo alimento que Deus dá. É tudo de bom”, disse ela, que é uma mulher de muita fé.

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Igrejinha de Marinhos

Nem parecia, mas o dia já estava quase no fim e ainda precisávamos voltar para Brumadinho e seguir com a programação. Demos uma passadinha rápida para conhecer a igreja e, antes de ir embora, falei mais um pouquinho com o Rei.

Ou melhor, o Rei teve a gentileza de falar mais um pouco com a gente sobre seu projeto “BatuqueNatividade” – aqui a página no Facebook para quem quiser acompanhar:

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Rei e parte do nosso grupo

“É um projeto sociocultural voluntário que criei em 2010 em prol da comunidade. Temos várias ações: dança, música, literatura… Sempre trabalhei com música, tenho o exemplo dos meus pais que são muito ativos na comunidade, são uma referência cultural. As atividades acontecem livremente, vamos ocupando espaços. No Carnaval fizemos um bloco resgatando marchinhas. Já convidamos amigos do grafite para colorirem as ruas com sua arte. Mas o projeto não tem grana. Eu tenho o ‘Ateliê Pele Preta’, faço tambores. E, quando vendo, tiro uma parte para comprar material e fazer uma oficina de tambores com as crianças. É só tocar tambor que as crianças chegam. E aí cadastramos, vamos acompanhando como elas estão na escola. O tem força porque transforma, está sempre transformando”, contou.

A vontade era ficar ali e conversar mais e mais e mais (e comer mais umas rosquinhas também). Porque é pra isso que eu viajo, mais do que pra ver monumentos ou lugares bonitos, é para me redescobrir através de novas descobertas.

Foi incrível conhecer essas pessoas todas, aprender um pouco sobre sua cultura e seus projetos. Um trabalho de resistência, de força, de luta pelos ideais. Tudo feito com o coração, com simplicidade e tudo com muita alegria. Porque, independente de qualquer dificuldade (e certamente eles enfrentaram e ainda enfrentam muitas), é assim que a vida tem que ser. Experiência linda que recomendo muito!

Mais informações:
Instagram: @derole_por_brumadinho
Whatsapp: (31) 98646-9064
Valor do passeio: R$ 80,00 com almoço incluído

Participantes da Press Trip “Brumadinho além de Inhotim”: Mariana Viaja, Kari Desbrava, Mulheres Viajantes, Na estrada com as Minas, Sou+CariocaRodas nos Pés, Foco no Mundo, Canal Errei, Eu sou à toa, Ideias na Mala, Diário de TuristaHypeness, Revista de bordo Azul Magazine

Realização: De Rolé por Brumadinho. Apoio: Hostel 70, Hostel Moreira, Bar Hashtag, Komboza Bar, Dom Quixote Snooker Pub, Pub Crawl Brumadinho, Junior Cesar Guia, Casa da Horta, Restaurante Ponto Gê Inhotim, BatuqueNatividade, Brumavip Turismo e Prefeitura de Brumadinho.