Viajar é privilégio – e a gente precisa reconhecer isso

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Não, não é todo mundo que pode. Não é só se organizar. Nem só abrir mão do consumo de supérfluos e economizar certa quantia por mês. Não há táticas nem dicas nem truques e, arrisco dizer, nem milagres que tornem isso possível quando não se tem. Ponto.

Logo no começo do blog escrevi um texto que, ainda hoje, é disparado o mais lido: viajar não significa ser rica, mas sim fazer escolhas. Continuo acreditando nessa máxima. Mas, depois de um tempo, achei mais prudente acrescentar lá um parágrafo explicativo fazendo um recorte social/econômico. Porque a ideia ao escrever era falar de pessoas que têm o suficiente (ou mais) para viajar, mas preferem gastar com outras coisas digamos assim mais palpáveis no dia a dia e criticam quem não comprar nada – ou quase nada, “só” viagens. 😛

Então, sim, é uma escolha. Mas é uma escolha que nem todo mundo pode fazer. Eu posso? Ótimo. Você pode? Maravilha. Só que, atenção para este aviso necessário e importante: não podemos medir o mundo dos outros com a nossa régua. Inclusive tomo o maior cuidado – já falei isso em outro texto também – para não deixar que o blog se torne um espaço que dita regras, que frustra quem não pode fazer o que foi dito.

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Sei que viajar está cada vez mais viável e isso leva a gente a pensar que é algo que atinge todo mundo. Ou a cair no velho conto do esforço que leva ao benefício. E da-lhe textos com dicas de economia ou dizendo como é superpossível se organizar para não fechar o mês no negativo ou, ainda, mostrando como nem foi tão difícil assim juntar 100 reais por semana. Ou contando como é trocar hospedagem por trabalho. Ensinando a pegar carona. Mostrando como buscar alternativas. Ou simplesmente dizendo que a praia é de graça, a montanha é de graça, a cachoeira é de graça. Bom, até o Louvre tem um dia que é de graça… mas como é que se chega lá? Tem gente que é do Rio de Janeiro e nem conhece o mar!

A gente fala que é só deixar de comer fora com frequência quando, para muitos, ter comida dentro de casa já é um desafio. A gente fala que é só deixar de comprar uma brusinha nova por mês quando, para muitos, ter uma roupa nova mesmo que de segunda mão é um luxo. A gente fala que é só ficar atento aos sites de promoções de passagens quando, para muitos, falta dinheiro até para o ônibus ou o metrô no dia a dia.

E olha, não é questão de mérito. De ir atrás. De se dedicar com toda a sua força e acreditar de todo o seu coração. Às vezes a oportunidade não aparece. As portas não se abrem. Às vezes não há, sequer, a possibilidade de tentar. Há tantas realidades diferentes, mas tantas! E mesmo que a nossa convivência acabe, naturalmente, por ser com os que vivem uma situação parecida com a nossa, não dá para fechar os olhos (e a cabeça) e achar que não existe nada além. Mesmo que não haja por perto, mas a gente lê, conversa, descobre. Ou, pelo menos, deveria. Vamos estourar a bolha, gente!

Já passou da hora de todo mundo entender que viajar é um privilégio. E dos grandes! Mas é tão natural que, muitas vezes, a gente mesmo nem nota. Talvez seja uma noção distorcida de que privilégio é ser milionário e ter jatinho ou sei lá o que. Ou talvez seja só falta de empatia mesmo. No país – e no mundo – em que a gente vive, privilégio é sobreviver. É poder se alimentar. É ter condições de estudar. É aprender a ler. Viajar, então, está longe nessa lista.

Para muitos até sonhar é um privilégio… E não falo necessariamente de questão financeira, mas também de acesso a informações, de ser algo que faz parte do seu universo, ainda que em pensamento. Posso falar por mim. Durante muito tempo da minha vida eu nem sonhava em viajar porque eu não sabia que isso era possível na vida real. Porque na minha não era, nem nas dos que eu via e convivia.

Então, antes de dizer que só não viaja quem não quer… vamos parar e refletir. Continuo acreditando, sim, que não é questão de riqueza, mas de planejamento. Mas, repito, isso não vale como regra. E as exceções (do tipo fulano pegava livros no lixo, passou no vestibular e ganhou uma bolsa para estudar fora, ou beltrano se esforçou muito e conseguiu vencer mesmo sem apoio, por exemplo) se destacam exatamente por serem exceções.

Ter privilégios (os que citei e outros) não é errado – claro que numa contextualização histórica há uma série de “erros” (pra dizer o mínimo) que levaram a isso. Mas o errado, no caso, é não se assumir como privilegiado. Negar. Fingir que não é com você ou comigo. Porque é. Para quem quer entender melhor sobre o assunto, indico uma publicação maravilhosa do site Não Me Khalo: O que privilégio significa (e o que não significa). Leiam! Releiam. Vamos aprendendo. Reconhecendo a nós e ao outro, reconhecendo os abismos em que vivemos e lidando com as dores que esse entendimento às vezes traz. E vamos, assim, evoluindo, um pouquinho a cada dia. Mudar nossa visão – e nossas falas e, consequentemente, nossos comportamentos – já vai ser um grande passo rumo às transformações que o mundo precisa.