
*Texto e foto: Jordana Cavalcante
Em meio à rotina urbana de Boa Vista (RR), uma série de monumentos e placas passa despercebida por moradores e turistas. Espalhados por avenidas, praças e rotatórias, esses elementos compõem um acervo simbólico da memória local, ainda pouco incorporado aos roteiros turísticos tradicionais. Entre homenagens históricas, referências políticas e registros culturais, esses marcos revelam uma cidade que vai além dos cartões-postais mais conhecidos.
A seguir, um roteiro alternativo que propõe um novo olhar sobre Boa Vista, a partir de dez pontos que, embora discretos, ajudam a contar a história da capital roraimense.
- Busto de Santos Dumont (Aeroporto)
Logo na chegada à cidade, em frente ao Aeroporto Internacional Atlas Brasil Cantanhede, o busto de Santos Dumont homenageia o pioneiro da aviação. Apesar da localização estratégica, o monumento carece de sinalização e manutenção, o que contribui para sua invisibilidade.
- Pirâmide da rotatória UFRR–Aeroporto
Construída em 1983, a estrutura reflete uma curiosa tendência da época: a crença na energia das pirâmides como espaço de meditação. Hoje, iluminada em datas comemorativas, tornou-se um símbolo urbano, ainda cercado de interpretações equivocadas sobre sua função.
- Bustos de Tiradentes e Ottomar Pinto
Localizados nas proximidades do Quartel do Comando Geral, os bustos homenageiam o patrono da Polícia Militar brasileira e o ex-governador Ottomar Pinto. A presença cotidiana no espaço urbano contrasta com o desconhecimento sobre seus significados históricos.
- Monumento aos Três Pioneiros (Praça da Cultura)
A escultura representa três figuras centrais na formação regional: o indígena, o garimpeiro e o fazendeiro. Instalado em 1991, o conjunto sintetiza uma narrativa sobre a ocupação do território, embora atualmente apresente sinais de abandono.
- Monumento ao CAN (Palácio do Governo)
Uma águia de bronze marca a homenagem ao Correio Aéreo Nacional, fundamental para a integração da região a partir da década de 1940. Discreto, o monumento passa quase despercebido entre a vegetação do entorno.
- Coreto e placa em memória indígena (Praça do Centro Cívico)
O coreto histórico, espaço cultural desde os anos 1960, divide atenção com uma placa que homenageia o indígena macuxi Ovelário Tames. O memorial registra um episódio emblemático da luta por direitos indígenas, mas enfrenta problemas de conservação.
- Monumento à Bíblia (Centro Cívico)
Instalado em 1980, o monumento religioso permanece pouco identificado e parcialmente encoberto pela paisagem urbana, o que dificulta sua leitura e reconhecimento.
- Veleiro da Praça Barreto Leite
Considerado o primeiro monumento aos pioneiros da cidade, o veleiro simboliza a chegada por via fluvial e o início da ocupação. Apesar de seu valor histórico, acabou ofuscado por intervenções urbanas posteriores.
- Busto de Simón Bolívar (Rotatória do Trevo)
No cruzamento de importantes rodovias que conectam o Brasil à Venezuela e à Guiana, o busto de Bolívar reforça a dimensão geopolítica da região e sua integração sul-americana.
- Placa Fernanda Okamura e Samaúma (Bosque dos Papagaios)
A homenagem à jovem pesquisadora roraimense une ciência e natureza. A árvore plantada no local simboliza a continuidade de seu legado na pesquisa amazônica.
Turismo de olhar atento
Mais do que pontos isolados, esses monumentos revelam camadas da história de Boa Vista que não estão imediatamente visíveis. A ausência de sinalização adequada e a falta de manutenção em alguns casos contribuem para que esses marcos permaneçam fora do circuito turístico convencional.
Especialistas em turismo cultural destacam que a valorização desses elementos pode ampliar a experiência do visitante e fortalecer a identidade local. Ao incorporar esses pontos a roteiros interpretativos, como caminhadas urbanas e city tours, Boa Vista tem potencial para transformar o que hoje é invisível em patrimônio ativo.
No fim, o convite é simples: caminhar com mais atenção. Porque, em Boa Vista, a história pode estar logo ali, mesmo quando ninguém está olhando.





