Reinado de Araújos/MG: a mais tradicional (e melhor) festa da cidade

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A festa de Reinado de Araújos, no interior de Minas Gerais, é uma grande tradição local – assim como em várias cidades pelo Brasil, especialmente as menores, onde o Reinado ou Congado se mantém forte, sempre com características específicas que fazem com que seja diferente em cada lugar, mas tendo a mesma base.

Araújos está localizada na região oeste de Minas, a pouco mais de 150 km da capital, Belo Horizonte. Um lugar tranquilo e pequeno, com menos de 10 mil habitantes, mas que se transforma durante o período da festa.

Eu sou de lá e, alguns anos atrás, escrevi uma matéria sobre a festa para uma revista feita pela Prefeitura da cidade. Resolvi aproveitar alguns pontos e adaptar outros para compartilhar aqui um pouco mais sobre a história da festa e informações sobre a forma como é realizada hoje. Contei com a ajuda das informações e fotos passadas pelo Eduardo Rodrigues, que já foi presidente e ainda hoje é um grande ajudante, atuando voluntariamente na divulgação e organização da festa.

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História da festa de Reinado

A expressão religiosa do Congado, especialmente a do Reinado de Nossa Senhora do Rosário em Minas Gerais, começou a se desenvolver no período escravocrata brasileiro.

Os negros escravizados sofriam um violento processo de imposição cultural por parte dos senhores e passaram, então, a reelaborar e reinterpretar os seus valores. Esses valores sobreviveram às imposições, mas foram também se mesclando com as expressões culturais de cada lugar e se transformando Brasil a fora, sempre mantendo viva a tradição – mas com suas particularidades em cada cidade.

Reinado em Araújos no passado (Foto: Reprodução da Revista de Araújos)

Como o Reinado em Araújos começou

Em Araújos tudo começou quando o senhor Agostinho Francisco das Chagas, mais conhecido como Agostinho Israel, comprou um caminhão usado em Santo Antônio do Monte, no final da década de 1920. Era o primeiro caminhão da cidade e fez um grande sucesso.

Foi com esse mesmo caminhão que, dois anos mais tarde, em 1931, Agostinho foi a Santo Antônio do  Monte e levou para Araújos dois grupos de dançadores de Reinado – ou dois “cortes”, como os grupos são chamados: o Congo e o Moçambique.

A festa já era uma tradição na cidade vizinha. De origem religiosa, em devoção a Nossa Senhora do Rosário, logo o Reinado conquistou os araujenses e passou a acontecer todos os anos, num misto de folclore e religiosidade.

A primeira festa foi simples, mas atraiu moradores de toda a região. Os dançadores se alojaram na Escola Reunida Araujense, onde hoje é o Centro Paroquial. Os uniformes também eram simples, mas muito enfeitados com rendas e fitas.

Os festeiros – pessoas que oferecem alimentação para os dançadores – foram o casal Francisco Coelho e Emília. A senhora Teodora, então esposa de Agostinho Israel, foi escolhida para ser a Rainha Conga, hoje chamada Rainha Perpétua. Algumas sucessoras de Teodora foram Ritinha do Raimundo Alonso, Lourdes Martins, Maria das Graças Sousa, Maria Neuza dos Santos, Célia Maia, Tida Santos, Karla Santos e Agostinha (que é a atual).

Já o cargo de Rei Congo só pertenceu a duas pessoas: Geraldo Joaquim da Silva, o Geraldo do Tonho, e seu neto Almir Antônio da Silva, o Bila. Além desses cargos, existem outros como o Rei Moreno e Rainha Morena – que eram Solange e José Miguel, mas, depois do falecimento dela, passaram a ser Sônia Costa e Josimar Costa, filhos do casal. E também Príncipe e Princesa (Rayssa Amaral). Esses representantes vão mudando a cada período.

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Cortes de Reinado em Araújos

As festividades contavam apenas com os cortes de fora até que o primeiro corte em Araújos foi fundado na década de 1940, quando o senhor Dote se mudou para a cidade. Esse corte ainda existe – por muitos anos ficou sob o comando de seu filho, Osvaldo do Dote, também falecido. Ambos são nomes muito importantes na história do Reinado de Araújos.

O segundo corte da cidade foi formado por  Antônio Jacinto e acabou após o seu falecimento. Mas seu filho, Rafael Jacinto de Freitas, continuou sendo uma das grandes figuras do Reinado. Ele foi, também, presidente do Congado em Araújos entre 1990 e 2003.  Nesse período foram realizadas obras importantes com o dinheiro arrecadado pelos cortes. Um exemplo foi a construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário.

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Outros nomes que marcaram o Reinado de Araújos, entre dançadores e membros da diretoria, alguns deles já falecidos, alguns ainda na ativa, e que valem ser citados, são:

Cabelo Loiro, Severo Avelino, Capitão Vicente Jacó, Capitão Edinho, Libério Jacinto, Tõe Bem, Quel, Ivair, Antônia do Beiju, Lúcio do Tõe Barba, Moacir Cândido Duarte (Bom Despacho), Geraldo Orlando Carvalho e outros.

O Reinado conta também com o apoio da Prefeitura, Secretaria de Cultura, da Igreja e da população como um todo.

(Foto: Reprodução da Revista de Araújos)

Festa de Reinado em Araújos atualmente

Atualmente existem quatro cortes de Reinado em Araújos. O mais famoso é o do Moçambique. Com trajes brancos, é responsável pela guarda da imagem de Nossa Senhora.

Os uniformes dos outros cortes não têm cores definidas, basta que sejam alegres e coloridos – a roupa do capitão de cada corte deve ser sempre diferente. Também não existe limite de idade para ser dançador – há desde crianças bem pequenas até pessoas mais velhas. E todos tocam algum instrumento, como pandeiro, sanfona, caixa e outros.

O início da festa é marcado pelo “Levantamento do Mastro”, que significa o tempo de adoração à Nossa Senhora, quando troncos com bandeiras são colocados em frente à igreja, tendo também apresentação dos cortes. Acontece na segunda quinzena do mês de julho.

Já o Reinado acontece um mês depois, sempre no final de agosto ou início de setembro. São quatro dias de duração.

A abertura oficial acontece na sexta-feira, com a celebração da missa campal, seguida de jantar para os dançadores, marcando o início da festa. Além dos cortes de Araújos, a cidade recebe cortes de Perdigão, Moema, Nova Serrana e Bom Despacho, a convite da diretoria.

No domingo há a transação das coroas dos festeiros. São mais de 30 pessoas da cidade que, voluntariamente e com muita alegria, pegam a coroa e ficam responsáveis por oferecer almoço, jantar ou café para os dançadores.

No “Levantamento do Mastro” também há responsáveis pela alimentação – mas, ao invés de coroas, pegam as bandeiras. Uma das festeiras é minha irmã, Manuela (na foto com a família e os reis e rainhas):

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E na segunda-feira acontece o encerramento da festa. Os cortes dançam nas ruas, visitam os festeiros e se reúnem na Praça da Matriz, onde há a descida do mastro, missa e procissão, lembrando a todos o caráter religioso do evento.

Com o tempo, a festa de Reinado foi tomando uma dimensão maior. Não é um evento turístico, é algo mais local. E é a principal atração de Araújos, a época em que a cidade recebe o maior número de pessoas – especialmente antigos moradores ou que são de fora, mas têm família na cidade, e aproveitam a ocasião para uma visita.

Em 2022 fiz um vídeo curto, que publiquei no meu Instagram, com algumas imagens dos cortes dançando na Praça da Matriz (clique para assistir):

Além da parte cultural, com a apresentação dos cortes, e da missa e da procissão, marcando a parte religiosa, há um grande movimento nos bares, barracas na região entre a Praça da Matriz e a Praça do Coreto com vendas de lanches, bebidas e produtos diversos. E também muitos brinquedos. As ruas ficam lotadas e é um ótimo período para a economia local. Uma combinação perfeita de tradição, fé e cultura.

Para datas e outras informações, acompanhe o Instagram da Prefeitura de Araújos e também do Reinado de Araújos.

* As fotos publicadas aqui foram publicadas originalmente no Instagram e no Facebook – e duas delas são uma cópia da Revista de Araújos 50 Anos, conforme indicado nas próprias imagens.

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