Quem dorme em Gaia atravessa o rio todos os dias

 

 

 

 

 

Foto: Filipe Nobre / Unsplash

 

Quando se procura onde ficar no Porto, aparece sempre a mesma dúvida e quase nunca a mesma resposta: a Ribeira ou a outra margem. Vila Nova de Gaia fica a poucos minutos a pé, tem a vista que toda a gente fotografa e é onde estão as caves de vinho do Porto. Mas escolher uma margem não é escolher um bairro, é escolher uma rotina diária de travessia. Vale a pena perceber o que a ponte muda antes de fechar o alojamento no Porto.

Os dois tabuleiros da ponte não levam ao mesmo lugar

A ponte Luís I tem dois tabuleiros sobrepostos, e isso confunde quem chega. Não são duas faixas da mesma estrada, são dois níveis a alturas diferentes que desembocam em pontos diferentes das duas cidades. O de baixo termina, do lado de Gaia, junto à Avenida da República, ao nível do rio. O de cima sai lá em cima, na zona do Jardim do Morro e do miradouro da Serra do Pilar. Segundo a Infraestruturas de Portugal, o conjunto tem 395 metros de comprimento e foi inaugurado a 31 de outubro de 1886.

Por que o metro passa por cima da ponte

O tabuleiro superior deixou de ser rodoviário. O Metro do Porto descreve a obra de reconversão como a substituição do tabuleiro rodoviário existente por um tabuleiro ferroviário inteiramente metálico, para receber a Linha Amarela. Na mesma intervenção a largura passou de 8,23 para 9,80 metros, com passeios pedonais de 1,70 metros de cada lado. Ou seja: em cima passam o metro e os peões, lado a lado. É a travessia mais bonita da cidade e é gratuita se for feita a pé.

O teleférico e o caminho até as caves

Do lado de Gaia há um desnível grande entre o tabuleiro de cima e o cais. Quem sai do metro no Jardim do Morro e quer descer até ao rio tem duas opções, a rua a pé ou o teleférico, cuja estação superior fica precisamente junto ao Jardim do Morro e ao miradouro da Serra do Pilar, e a inferior no Cais de Gaia. É lá em baixo que estão as caves. A Câmara Municipal de Gaia lista dezenas delas na zona ribeirinha e no centro histórico, entre as quais Cálem, Sandeman, Ferreira, Graham’s, Taylor’s, Ramos Pinto e Kopke. Nenhuma fica do lado do Porto.

Vale a pena dormir em Gaia?

Depende de uma coisa só: quantas vezes por dia vai atravessar. Se o plano é sair de manhã, andar pelo centro do Porto o dia inteiro e voltar à noite, são duas travessias e a resposta é sim, com folga. Se o plano inclui voltar ao quarto ao meio-dia, passam a ser quatro, e o desnível de Gaia começa a pesar nas pernas. O tarifário do Metro do Porto em vigor desde 1 de janeiro de 2026 põe o bilhete simples Andante Azul da zona Z2 em 1,40 euros e o título de 24 horas da mesma zona em 5,35 euros. Convém confirmar no contador de zonas do operador quantas zonas conta o seu percurso, porque é isso que define o preço, e não a distância a pé. Cadeias como a B&B HOTELS têm casas dos dois lados, em Gaia e em Massarelos, e a escolha entre elas é mesmo esta e não outra.

O engenheiro da ponte não se chamava Eiffel

Fica o detalhe que quase todos os guias trocam. A ponte Luís I não é de Gustave Eiffel. A Infraestruturas de Portugal atribui o projeto a Théophile Seyrig, antigo sócio de Eiffel, executado pela belga Société de Willebroeck. A confusão vem daí, dessa antiga sociedade entre os dois, e repete-se em quase todos os guias. Reparar nisso enquanto se atravessa a pé, lá em cima, ao lado do metro, é uma forma de olhar melhor para a estrutura.

A obra de reconversão explicada pelo Metro do Porto, a lista oficial das caves na Câmara Municipal de Gaia.

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