Pequena África: passeio pela região do Rio de Janeiro é um resgate da nossa história

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“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”. Por isso é tão importante conhecermos o nosso passado, o passado do nosso povo, do nosso país. A frase foi dita pelo político irlandês Edmund Burke, que viveu no século XIII, mas faz sentido ainda hoje, pois em muitos casos o que vemos é um apagamento da memória, especialmente quando se fala dos negros. Então, antes de falar sobre o passeio na Pequena África, no Rio de Janeiro, acho importante fazer uma contextualização.

No período da escravidão, cerca de 10 milhões de africanos foram trazidos para as Américas. Quase metade deles ficou no Brasil, especialmente no Rio, que foi uma das cidades mais negras do período colonial. Mesmo depois da abolição da escravatura, a cidade continuou recebendo negros de diversas partes do país.

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Muita gente usa o termo “escravos”, mas o correto é falar em negros escravizados. Eles eram arrancados de suas terras, viajavam em condições desumanas, eram maltratados, humilhados e comercializados como se fossem mercadorias. Isso aconteceu durante anos e se reflete ainda hoje em um racismo estrutural, embora camuflado pela ideia de um país miscigenado.

Segundo informações da ONU (Organização das Nações Unidas), de cada dez pessoas assassinadas no Brasil, sete são negras. Os dados são ainda mais alarmantes na faixa etária de 15 a 29 anos, em que a cada duas horas cinco jovens negros perdem a vida para violência. Os dados são de 2018. Por outro lado, os negros estão cada vez mais conquistando espaços que antes eram apenas para brancos e elitizados. E estão ganhando voz para reivindicar ainda mais seus direitos, o que também gera reações por parte de pessoas que se incomodam com esses avanços em direção à igualdade.

Por isso a importância da valorização de lugares como a região chamada Pequena África, no centro do Rio de Janeiro, que tem pontos nos bairros da Gamboa, Saúde e Santo Cristo, próximos à Zona Portuária. É um passeio turístico, mas é muito mais que isso. É um resgate da nossa ancestralidade, da herança cultural e histórica dos negros, e de tudo o que vem se tornando esquecido ao longo dos anos.

Dá para conhecer por conta própria? Dá. É tudo aberto, gratuito e ao ar livre. Mas fazer um tour guiado é muito mais interessante exatamente por todo o conhecimento que enriquece demais a experiência.

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Tour pela Pequena África

Fiz o passeio guiado com a Gaby Palma, do Sou+Carioca – quem acompanha o blog sabe que já fiz outros passeios com eles, vale a pena seguir a página e conferir a agenda que tem sempre muita coisa legal.

Durante algumas horas andamos pela região da Pequena África, passando por pontos importantes da história dos negros pelo Rio de Janeiro, locais que eram muito frequentados por eles no século XIX – daí o nome.

Praça Mauá

É onde começa o passeio. Há uma estátua do Barão de Mauá, que não era escravagista e não apoiava o comércio de negros, e que mais tarde passou a dar nome à praça. A Praça Mauá foi revitalizada na criação do Porto Maravilha e é onde fica o Museu do Amanhã, feito para pensar o futuro. Mas e o passado? Precisamos pensar nele também, certo?

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Morro da Conceição

Da praça seguimos para o Morro da Conceição, mas passamos somente pela entrada. Ele era importante para proteger a cidade das invasões que aconteciam até Portugal chegar ao Rio e colonizar a cidade, em 1565, ano de fundação. Hoje é uma região residencial, que mantém as construções históricas e bela arquitetura, mesmo estando em meio aos prédios do centro.

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Largo de São Francisco da Prainha

pequena-africa-rio-de-janeiro-largo-sao-francisco-prainhaFica logo na sequencia do Morro da Conceição. Uma curiosidade, que justifica o nome do local, é que, no passado, o mar chegava até lá! Hoje ainda há alguns sobrados no entorno, muitos tombados pelo patrimônio histórico, mas muitos, também, abandonados. No centro há uma estátua homenageando a 1ª bailarina negra do Theatro Municipal, Mercedes Batista – sem oportunidades no balé clássico por causa de preconceitos, começou a estudar dança contemporânea africana e se tornou referência na área. É onde fica, também, um dos restaurantes mais tradicionais da região, o Angu do Gomes.



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Jardim Suspenso do Valongo

Construído em 1906 como espaço de lazer para os moradores do Morro da Conceição, que na época eram pessoas de alto poder aquisitivo, mas que não tinham um centro de lazer. Fica a sete metros de altura acima do nível da rua e tem inspiração nos parques franceses do século XIX, com jardins e estátuas que antes ficavam no Cais da Imperatriz. Ficou abandonado por muito tempo e foi restaurado com as obras de revitalização da região portuária.

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Cais do Valongo

Encontrado recentemente na escavação das obras de revitalização, é onde chegavam os negros para serem comercializados e escravizados. Inicialmente o cais era na Praça XV, mas, por ser residência da família real e da alta sociedade, acharam melhor fazer esse novo que, mais tarde, quando a Imperatriz ia chegar ao Brasil, foi reformado. Há dois tipos de pedras visíveis: as menores e mais antigas embaixo e as maiores em cima, já da reforma. É o único vestígio material dessa história e, em 2017, foi eleito Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO.

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Pedra do Sal

Local onde os escravizados “quebravam” o sal que desembarcava na cidade. Para facilitar o deslocamento, construíram degraus na própria pedra. Lá faziam festas com muita música, o que fez com que Pedra do Sal fosse considerada o berço do samba, mas, na verdade, o samba não nasceu no Rio, e sim na Bahia e foi difundido pelos baianos que se mudaram para a cidade. A casa da Tia Ciata, também baiana morando no Rio, abria as portas para todos e o primeiro samba gravado, “Pelo Telefone”, foi escrito lá. Só quando ele tocou na rádio é que todo mundo passou a ouvir, antes o ritmo era marginalizado.

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Instituto Pretos Novos

Não fui no dia do tour, acho que estava fechado. Mas já escrevi sobre ele no texto com dicas de museus para visitar no Brasil. É um espaço para conservação e proteção do patrimônio africano e afrobrasileiro, principalmente o sítio arqueológico do cemitério dos negros escravizados que morriam ao chegar no Brasil.

O passeio pela Pequena África é uma aula que nos faz repensar muita coisa e, principalmente, que ajuda a valorizar nossa memória e nossa identidade que é, acima de tudo, de resistência!

Para ler ouvindo:

https://www.youtube.com/watch?v=Swbt2HGmXmY

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