Quanto tempo faz que era março de 2020?

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Eram pouco mais de 3h da madrugada e eu achei que seria uma boa ideia abrir a porta da varandinha do quarto para tomar um ar. Tinha dormido cedo sob efeito do antialérgico, meu companheiro dos dias de mudanças climáticas bruscas. Acordei com uma dor de cabeça daquelas que dói até a arcada dentária, tomei outro remédio e nada do sono voltar.

Lá fora fazia uns 12 graus e eu achei mesmo que seria uma boa ideia abrir a porta da varandinha do quarto pra tomar um ar? O vento gelado bagunçou meu cabelo e minhas ideias. Voltei no tempo pensando naqueles dias na mesma varandinha, consumida por crises de ansiedade que teimavam em aparecer nas madrugadas.

Março de 2020. A gente ainda tinha alguma esperança. Tinha, não tinha? Já não me lembro tão bem. Ando meio perdida no tempo e talvez até no espaço.

O calendário diz que se passaram quase seis meses. Minha cabeça às vezes me diz ontem e outras vezes diz que foi em outra vida. Outra dimensão. Um tempo que não dá para ser contado assim cronologicamente, eu acho. São uns 180 dias e isso é mais de meio ano, mas depende. Um pedaço de verão, um outono inteiro e praticamente um inverno.

Dia desses, procurando um poema que eu lembrava ter postado nos stories, fui voltando nos arquivos do Instagram e meu Deus… Quem era aquela Mariana? Que mundo era aquele que acabou?

Ao mesmo tempo, parece que foi na semana passada que eu vivi dias intensos naquele início da pandemia, tentando conscientizar as pessoas, tentando esclarecer notícias falsas, tentando organizar o conteúdo do blog para falar de outros temas que não fossem turismo. Tentando produzir, relaxar, não me culpar, resolver, tentando controlar, tentando me controlar, tentando.

Olhar para frente, ali, era um vão. Uma tela em branco. Um monte de dúvidas. Olhar para trás, hoje, é estranho. Tivessem me contado antes como seria eu ia dizer que não dava. Mas deu. Entre livros e filmes e lives e procrastinações e novas tarefas e cursos e noites insones e dias pesados e janelas e quintal e gatos e comidas e incertezas e raivas e decisões e medos, até agora eu sobrevivi. Você sobreviveu. Alguns caminhos mais doloridos que os outros, é fato, mas aqui estamos. Inteiros? Eu poderia fazer um texto todo só de interrogações.

Naquele começo, quando ainda inocentes pensávamos que sairíamos dessa em um mês ou dois, a sensação era de que a vida tinha me colocado em um carrinho de uma montanha russa bem radical.

Fiquei tão tonta com os inúmeros loopings que não sei nem mais dizer se o carrinho continua em movimento ou se já parou e minha cabeça segue girando.

Sei que mais de 100 mil vidas se foram enquanto eu tentava me segurar. Despencados da mesma montanha russa na qual eu estava ou ainda estou. Nos primeiros a gente se choca. De repente são 100. São mil. São 50 mil. A gente vai parando de se assustar porque a gente precisa viver. Seguir. Mas quem é que tem saúde pra cuidar de si e dos seus e tentar manter o carrinho nos trilhos, ainda que desgovernado? Quem é que dá conta?

Em algumas coisas a gente vai se adequando, mas não entendo nem aceito a normalização do que nunca será normal. Ou “novo normal”. Enlouqueceram ou fui eu que enlouqueci – pelo menos estou trabalhando mais de 10h por dia e não dá tempo de pensar direito.

Às vezes parece até que fiquei anestesiada. Tipo aquela música do Arnaldo. Nem medo nem calor nem fogo nem amor nem dor, não dá mais para chorar nem para rir.

Daquele passado, que parece ter acontecido tanto tempo atrás, lembro do meu corpo dolorido de tensão, da musculatura rígida e ao mesmo tempo trêmula. Das lágrimas que vinham com uma frequência maior do que eu gostaria. Era quarentena o nome.

Ainda é. Não acabou. E a gente quer que acabe logo, mas não que o tempo passe. A gente quer que acabe e ainda seja março de 2020. Quanto tempo faz mesmo?

Para ler ouvindo (em memória de Aldir Blanc):

Foto principal: Imagem de nile por Pixabay

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