Como nós, brancos, podemos atuar na luta antirracista?

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O assassinato de George Floyd nos Estados Unidos (um homem negro morto asfixiado por um policial branco) desencadeou uma série de protestos antirracismo no país. E logo o movimento ganhou o mundo, com manifestações nas ruas e apoio nas redes sociais – você deve ter visto por aí diversos perfis no Instagram, famosos e anônimos, postando uma imagem preta ou algo relacionado a racismo.

Enquanto isso, no Brasil, mais um jovem negro morria baleado em uma ação da polícia. João Pedro, 14 anos, foi atingido nas costas por um projétil de fuzil enquanto brincava com os amigos em casa. Casos semelhantes já haviam acontecido antes durante operações violentas em favelas ou em abordagens policiais. Segundo levantamento da Anistia Internacional na campanha Jovem Negro Vivo, a cada 23 minutos morre um jovem negro no nosso país.

E assim o “Black Lives Matter” (em português “Vidas Negras Importam”) ganhou força por aqui também. O movimento, de acordo com a definição do próprio site, é uma intervenção política e ideológica em um mundo onde vidas negras são sistemática e intencionalmente desaparecidas, um incentivo por mais protestos e mais atos de resistência.

Mas voltando ao Instagram… pensei muito antes de postar, com receio de que se tornasse um esvaziamento da causa. Porque é óbvio que foto preta nas redes não basta! Mas acreditei que poderia ser, sim, um pontapé inicial para uma mudança de fato ou, pelo menos, para fazer pensar.

O que nós, brancos, estamos fazendo na prática? E o que mais podemos fazer?

Na minha breve lista coloquei: não votar em candidatos racistas, não se calar vendo políticos que relativizam isso, apoiar política de cotas, cobrar equidade das empresas, problematizar fotos de formandos ou líderes/gestores com total ou maioria branca, apoiar o trabalho de pessoas negras, ter mais referências negras em diferentes áreas profissionais e em assuntos da causa, respeitar lugar de fala, ouvir, reconhecer nossos privilégios, estar aberto a aprender, lugar contra o genocídio do povo preto sempre e não só quando um movimento vira moda…

Questiono isso a mim mesma, no meu processo constante de desconstrução e ainda cheio de falhas. Ouço. Converso. Leio. Aprendo. Eu, que pouco sei, mas que acho sempre válido compartilhar e trocar. Então resolvi trazer o assunto para o blog e produzi o conteúdo abaixo com pesquisas e informações de sites e projetos que acompanho, com a voz de quem entende de fato do assunto.

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Como ser antirracista

O perfil “Falando de Racismo” compartilhou alguns pontos básicos, mas extremamente importantes, para os quais nós devemos nos atentar:

– Entender que as oportunidades que temos são frutos do nosso privilégio por sermos brancos.

– Estudar e perceber como o Brasil foi um país que se desenvolveu às custas da escravização da população negra.

– Repreender e não tolerar comentários e ações racistas de outras pessoas.

– Incentivar ações e políticas públicas que combatam o racismo estrutural.

– Propagar a história da comunidade negra e educar o resto das pessoas sobre questões raciais.

– Não compactuar com piadas ou comentários racistas e reportar aos superiores sempre que acontecer em seu trabalho, faculdade ou escola.

Outro ponto importante é abolir do vocabulário palavras e expressões de origem racista, como: denegrir, mercado negro, inveja branca, da cor do pecado, cabelo ruim, mulata, entre outras – leia mais no texto “Em boca fechada não entra racismo” do site Geledés.

E, ainda, parar de reproduzir algumas frases – mas, principalmente, entender porque elas não fazem sentido. Algumas das mais comuns, explicadas pelo perfil “Sagrado Feminista”:

– “Somos todos humanos”: sim, mas o conceito de raça que se discute é sociológico, que se deu no processo de colonização, que produziu a ideia de raça inferior e até hoje ainda gera apagamentos e exclusão.

– “Não sou racista porque tenho amigos negros”: afeto em relações pessoais não impede o racismo, as hierarquias sociais continuam existindo e se reproduzindo. Não é algo individual, é algo sistêmico.

– “E se fosse o contrário?”: já é o contrário desde que os portugueses pisaram na África e depois vieram para as Américas. Ou seja, já tem mais de 500 anos que é o contrário.

– “Todas as vidas importam”: historicamente, desde a escravidão até os dias de hoje, a população negra vem sofrendo com menos acesso à saúde, mais vulnerabilidade na segurança pública, menos chances no mercado de trabalho, entre outras desvantagens.

Portanto, não somos iguais! E aí chega a hora de falar em privilégio branco! Mas, antes, assista a este vídeo com uma fala da educadora, socióloga e ativista norte-americana Jane Elliott no documentário “Olhos Azuis – a dor do preconceito”, de 1968:

Privilegiado, eu?!?!

Para os que ainda têm dificuldade em entender, o perfil “Falando de Racismo” explicou que isso não significa que nossa vida não é complicada ou que não teve momentos difíceis. Significa apenas que o tom da nossa pele não é um motivo que torna tudo ainda mais difícil. O privilégio branco é fruto direto do racismo e dos preconceitos e práticas feitas para oprimir negros ao longo da história. Enquanto brancos enfrentam dificuldades, pretos enfrentaram e enfrentam escravidão, segregação, violência policial, etc. Nós brancos nos beneficiamos ativamente do sistema que oprime os negros.

Nós somos representados em todas as mídias, a maioria dos produtos são desenhados para nós, nossas ações não são estigmatizadas como típicas da nossa raça, não somos costumeiramente rotulados de bandidos ou suspeitos, as pessoas nos nossos trabalhos se parecem conosco.

Sem falar que a renda mensal média de um negro no Brasil é de R$ 1.608,00 enquanto a dos brancos é de R$ 2.796,00 (dados do texto “Abismo social separa negros e brancos no Brasil desde o parto”).

Ou seja, não é necessariamente sobre mim ou sobre você, não é sobre pessoas brancas individualmente. É sobre a branquitude como ideologia política. É sobre a forma como as coisas funcionam. É sobre enxergar os reflexos do racismo estrutural que ainda estão presentes em diversos níveis.

Veja também:
Pequena África, no Rio de Janeiro: um resgate da nossa história
Entrevista: como é ser uma mulher negra viajando pelo mundo

Entendendo o racismo estrutural

Um vídeo no Canal Preto no YouTube explica que o Brasil foi o último país do continente americano a abolir a escravidão. Até pouco mais de 100 anos, os negros traficados eram mantidos em condições subumanas de trabalho, sem remuneração e debaixo de açoite. Quando, no papel, a escravidão foi abolida, em 1888, nenhum direito foi garantido aos negros. Sem acesso à terra e a qualquer tipo de indenização ou reparo por tanto tempo de trabalho forçado, muitos permaneciam nas fazendas em que trabalhavam ou tinham como destino o trabalho pesado e informal. As condições subumanas não se extinguiram.

Durante e após a escravidão a imagem do negro foi associada à vadiagem, ao subalterno, ao sujo. Não à toa, as tarefas mais árduas, as piores remunerações e as formas mais cruéis de castigo ainda são reservadas aos pretos.

E o reflexo dos séculos de escravidão e opressão no Brasil ainda está aqui, hoje, nas desigualdades raciais. Empresas se posicionam em prol da causa, mas, entre os cargos mais altos, quantos são ocupados por negros? Observando os espaços que você frequenta, quantas pessoas pretas estão, como você, consumindo, e quantas estão servindo ou limpando?

Um ponto que também acho importante é fazer o recorte racial dentro de qualquer movimento. No caso do feminismo, um exemplo simples: quando é dito que as mulheres lutaram para poderem trabalhar, estão falando de mulheres brancas – porque as pretas já trabalhavam como domésticas e serviços afins desde sempre. O site Think Olga, no texto “Se o feminismo não for interseccional, ele não serve”, destacou que historicamente o feminismo branco – bem como a sociedade – vem reproduzindo um comportamento racista que coloca mulheres negras em posição de inferioridade. E é necessário que nos perguntemos criticamente, como nos lembra a feminista negra Sueli Carneiro: de que mulheres estamos falando?

Tudo isso se torna ainda mais complexo (e mais urgente!) porque nossa sociedade ainda não se reconhece racista, apesar de todas as evidências. Ainda é preciso expor o óbvio na tentativa de que mais pessoas se levantem contra o preconceito. Nós, brancos, não podemos ficar só no discurso. Precisamos entender que não é simplesmente uma discussão sobre ser ou não racista – o que é impossível sendo criado em uma sociedade estruturalmente racista.

Temos que ampliar nossas reflexões, nossas ações e nos comprometermos a dar mais espaço para a voz dos negros. Da minha parte, no pouco que posso fazer, vou abrir semanalmente meu Instagram @marianaviaja para pessoas que acompanho e admiro. Porque como bem disse Angela Davis:

“Em uma sociedade racista não basta não ser racista. É preciso ser antirracista.”

 

Foto: Geledés

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