Surta, sim! Um guia ao contrário para viver uma quarentena possível

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Perdi as contas de quantas vezes me deparei com dicas para não surtar na quarentena. Desde os primeiros desses mais de 100 dias, lá estavam as pessoas no melhor estilo “coach de pandemia”, cheios de “conhecimentos” para transmitir, como se fossem superiores a nós que não somos evoluídos o suficiente para passar por isso sem surtos.

Uma coisa que me incomodava (ainda incomoda) muito era ver que as tais dicas para não surtar eram compartilhadas com uma semana de quarentena ou um mês – mas quanto tempo ainda teríamos/teremos pela frente? Como dá então pra dizer isso? O mesmo vale para dicas de sobrevivência, seja para pessoas ou empresas. Mal começou a quarentena e já tinha gente vendendo suas estratégias para sobreviver. Mas essa pessoa/empresa sobreviveu?!?! Porque, antes de acabar, não dá pra dizer que sim, né!

Outro ponto que eu não aguento é a mania que alguns têm de achar que entendem de tudo, que têm de falar sobre tudo. Claro que psicólogos compartilharem dicas é legítimo, é profissional. Mas tá cheio de gente que fala sem conhecimento de causa e como se as mesmas dicas servissem para todas as pessoas. Gente, mas nem o mesmo shampoo que funciona no cabelo de uma amiga vai funcionar no seu, como então dicas para não surtar? Pessoas são diferentes, vivem realidades diferentes, com graus maiores ou menores de privilégios… Estamos falando do executivo que mora sozinho e está com dificuldade de sair da Netflix e ser produtivo ou para a mãe solo que tem de conciliar casa, educação à distância das crianças e trabalho? Para o garoto que tem escrivaninha no quarto que é só dele e tem banda larga veloz ou para o que divide uma casinha com mais seis pessoas e sem internet?

Fora que são sempre dicas extremamente genéricas do tipo veja filmes, leia livros, desenvolva um hobby, tente fazer algo que você gosta. Algumas vezes cliquei por curiosidade e me deparei com listas tão banais, de coisas que eu faço (e muitas vezes com o intuito de dar uma desanuviada mesmo), mas minha vontade era comentar “fiz tudo isso e surtei”. Sabe por que? Por que eu sou um ser humano lidando com um monte de desafios que esse momento impôs e pelo amor da deusa, eu preciso minimamente ter garantido o meu direito de surtar.

Não estou dizendo que não ajuda. Mas esses textos passam um impressão de que é muito simples encontrar o equilíbrio. E, por aqui, sei que as coisas não são bem assim. Não é como se todo mundo tivesse apenas problemas abstratos que desaparecem com algumas horas de distração. Antes fosse! Mas, como sempre digo, trabalhamos com vida real. Por isso resolvi fazer este guia ao contrário. Porque no meio desse turbilhão todo que estamos vivendo, às vezes surtar é a única opção possível – veja bem: eu não disse solução, eu disse opção, exatamente porque muitas vezes não há como solucionar o que cada um está vivendo. Então a gente dá uns berros! E não há nada de errado com isso! Parafraseando Fernando Sabino, no fim todo mundo surta; se não surtou é porque ainda não é o fim.

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Tudo bem surtar na quarentena

Antes de começar (ué, mas já não estamos no 6° parágrafo?!?) quero deixar bem claro que este não é um texto pra dizer que as pessoas têm de surtar. Pelo contrário. Sei que é importante, e muito, tentar se manter são, cuidar da saúde mental. E se você achar que está difícil demais, que está mais pesado do que você aguenta, procure buscar apoio profissional! Se cuide!

O que eu quero dizer aqui (talvez até para mim mesma) é que tá tudo bem se de vez em quando (ou até de vez em sempre) a gente não conseguir segurar a onda e desabar. É ansiedade, é tensão, é medo, é tristeza, é raiva, é decepção, é exaustão, é tudo ao mesmo tempo. E, como li por aí, tem a inexperiência, afinal, é nossa primeira pandemia! Portanto, não entenda isso como um incentivo ao desequilíbrio, mas sim um desabafo. Motivos não faltam!

Isolamento

Este talvez seja o motivo número 1 dos surtos. Fazer isolamento social não é fácil, lidar com as saudades de pessoas ou de situações não é fácil. Convivência não é fácil, amor não é sinônimo de se dar bem por 24h. E pior ainda quando a sensação é de que só você e mais meia dúzia estão se privando de tanta coisa e ficando em casa enquanto outros estão se encontrando, se reunindo, festejando. E estamos falando de coletividade, não é uma situação em que a atitude do outro é problema do outro. É de todos nós. Então sem essa de livre arbítrio, de quem não quiser é só não sair. É muito mais que isso. E ver fotos desses acontecimentos dá uma sensação de que estão debochando da nossa cara e isso desperta um misto de raiva, de tristeza. Como que não surta, gente?

Produtividade

Logo na primeira semana escrevi sobre isso em uma legenda do Instagram. Tem gente que se sente melhor se encher o dia de afazeres. Tem gente que não. Errada é a cobrança como se todo mundo só funcionasse assim. Eu, que já tinha uma rotina de home Office há uns seis anos ou mais, às vezes não consigo render. Às vezes não consigo nem prestar atenção em filme, em livro. Tem dias que simplesmente não dá. Imagino então quem está se acostumando a esta forma de trabalho, somado a todas as outras questões. Claro que o que é obrigatório a gente tem que se virar e fazer, mas é isso e pronto. Ninguém precisa se forçar a fazer mais. Mas às vezes a cobrança (ou a sensação de cobrança) vem dos outros, gera uma ansiedade tremenda e é difícil não surtar.

 

Trabalho

A gente fala do quanto é complicado se organizar trabalhando de casa, mas quantas e quantas pessoas estão precisando sair para trabalhar fora? Os médicos, enfermeiros e profissionais da linha de frente, em contato constante com o risco. Demais trabalhadores de ambientes da saúde (limpeza, recepção, etc). Gente que precisa enfrentar transporte público lotado porque trabalha em serviços essenciais ou porque o patrão resolveu que não ia liberar. Que não tem com quem deixar os filhos, já que as escolas e creches estão fechadas. Eu não consigo nem imaginar o tamanho da angústia dessas pessoas, mas eu entendo perfeitamente se elas surtarem!

Gente sem noção

Além de ver gente agindo como se nada estivesse acontecendo, ainda têm as notícias falsas sendo espalhadas, profissionais da saúde e da imprensa sendo difamados, gente defendendo o presidente e até fazendo gracinha em meio a um número crescente de mortos. Disse “sem noção” para não dizer “cruel” e porque acredito que alguns só sejam mesmo desinformados. Mas não dá para simplesmente relevar. Claro que se a gente for se indispor individualmente com cada um pode ser um caos. Mas, mesmo que não seja expressado, internamente a gente tem todo o direito de sentir raiva. Até porque estamos falando de coletividade. A atitude do outro não é um problema do outro, é de todos nós. A vontade é de dar na cara, mas, como é preciso evitar o contato físico, aí só surtando mesmo!

 

Noticiário

Por mais que a gente fuja, não adianta. As notícias vão chegar. Não falo sobre ser alienado, mas muitas vezes eu tentei não ficar muito por dentro e focar em coisas mais leves. Mas não tem jeito. É importante, também, saber os números, os acontecimentos. E aí não tem como não se deixar afetar. Tanta gente doente, tanta gente morta, tanta gente irresponsável, fora as notícias do (des)governo e outros problemas que não deixam de existir, como racismo, violência… Tudo isso vai nos consumindo e o resultado são pequenos surtos diários.

Alimentação

Uma das primeiras decisões que tomei foi relaxar com a alimentação. Sempre fui regrada, mas poxa, já é tanta coisa difícil. Comer é saúde, mas é, também, prazer. E foi no prazer que pensei quando comecei a me permitir coisas que, antes, não estavam presentes no meu dia a dia. Não sei se pelos mesmos motivos, mas vejo muita gente também se rendendo a comidas que não costumavam comer com tanta frequência. E daí que os botões da calça não vão mais fechar depois? Gordofobia uma hora dessas, sério? Como se não bastasse sair vivo, tem que sair magro. Pior, como se magro fosse sinônimo de bonito ou de saudável. Haja chocolate para não surtar!

 

Questões financeiras

E por falar em boletos… É tanta gente sem trabalho, é o auxílio do governo que demora a cair, é aplicativo dando erro, é gente sem perspectiva profissional, tentando se virar da forma que dá. As questões financeiras estão entre as maiores causas de depressão, isso independente de pandemia. E agora o número de pessoas em situações difíceis é ainda maior. Às vezes só de ver ou imaginar outros passando por isso a angústia e a tristeza já vêm. E às vezes é com você que toda essa situação está acontecendo, aí o surto é maior e tem mesmo de ser.

Sobrecarga

Trabalhar de casa, cuidar dos filhos, acompanhar as aulas online, cuidar dos pais, manter a casa em ordem, estar presente, estar longe. Cada um com suas lutas, não é fácil para ninguém. Sem falar nas inúmeras pessoas (aliás, nas inúmeras mulheres!) sem rede de apoio – seja porque não têm mesmo ou porque não podem mais ter o contato próximo. Não sobra nem tempo para tentar buscar o tal do equilíbrio. Impossível querer que não surtem!

 

Mudanças de planos

É difícil ter que adiar ou até cancelar coisas que estavam planejadas há tempos. Envolve sonhos, expectativas, dinheiro. E, mais difícil ainda, é não saber quando será possível. Não é uma situação em que simplesmente estamos em casa, como se estivéssemos só dando um tempo, mas pensando que no mês X poderemos fazer tal coisa – o que muitas vezes ajuda a aplacar um pouco a ansiedade. A gente até pode tentar ser otimista, mas ainda é tudo muito utópico. Na prática não tem como ninguém se organizar. O futuro é uma incógnita.

Novos hábitos

Quantas vezes já me peguei saindo de casa e, ao colocar o pé para fora do portão, me lembro que estou sem máscara e volto para buscar. A gente precisa se adaptar a toda essa nova rotina e não é simples. Tem que usar máscara, tem que passar o álcool em gel, tem que lavar as compras, higienizar o que vem da rua, lavar as mãos de novo. Aí uma pessoa tosse perto da gente ou a gente esquece e encosta a mão no rosto… Tudo isso vai gerando uma paranoia! É um espirro e surto na certa!

 

Medo

Do vírus, do futuro, de tudo. Preocupações. Tanta gente morrendo, mesmo que não sejam conhecidos nossos, mas poxa, todo mundo é filho ou pai/mãe ou irmão ou amigo de alguém. A gente vai absorvendo essas dores, a angústia vai crescendo. Os números vão se transformando em nomes, até quando nós ou os nossos estaremos a salvo? Estamos, muitos, no nosso limite ou até já passamos dele, porque não temos escolha. Ansiedade a mil. E sem válvula de escape.

Meditação

Ah, sim, e meditação. É só falar em insônia, ansiedade, falta de apetite ou apetite demais, urticária, queda de cabelo, que surge alguém com a clássica pergunta: já tentou meditação? Nada contra, inclusive faço. E até me ajuda. Acontece que, para lidar com problemas reais, a meditação não resolve. Por exemplo, quando a insônia ou a ansiedade são causadas por uma grande dívida ou desemprego – dizem que meditar muda a forma de lidar, mas qual é a outra forma de lidar com um boleto vencido que não seja pagando o boleto? Aqui entram também o pensamento positivo, a fé, as boas energias e todas essas coisas nas quais eu até creio bastante, mas não deixo de surtar quando vejo pessoas colocando como se bastasse para resolver tudo. “Não esquece de respirar”.

 

Mas e a gratidão?

Até os motivos pra ser grata – que tenho muitos – de repente se tornaram um peso. Aquela velha história, agora ainda mais potencializada, de que você não pode reclamar porque tem gente pior. Quando, na verdade, não é sobre ter gente em situação melhor ou pior, mas sobre algo que incomoda você. Ponto.

Mesmo ciente dos privilégios e do quanto há para agradecer, todo mundo tem seus momentos, suas situações difíceis (não importa se mais ou menos difíceis que as de outros). Se te dói, é legítima sua dor, é legítimo se lamentar, sofrer, reclamar. Ainda assim, me culpo porque às vezes reclamo literalmente de barriga cheia. Mas até pensar nas desigualdades é algo que faz mal.

E a pandemia não veio pra nos ensinar nenhuma lição. Ela está matando milhares e milhares de pessoas no mundo todo, ela está impedindo que a gente circule normalmente, que a gente tenha contatos sociais, que a gente esteja junto das pessoas que a gente gosta. Não adianta dicas para não surtar na quarentena, não é simples como veja um filme, faça uma atividade que você gosta, coma uma receita gostosa. Eu lamento muito que para alguns tenha sido necessário tudo isso pra poder pensar em coisas básicas da vida. Mas, de novo, não é uma regra. Nem todo mundo vai tirar um aprendizado disso porque é uma doença, não um livro de ensinamentos. E estar em uma condição que permite o equilíbrio ou a busca dele é, também, um privilégio. Geral tentando sobreviver e gente aprendendo a valorizar o pôr do sol. Se poupem, me poupem!

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